Tropicalismo, 40.

Outubro de 1967 ficou conhecido como o mês em que foi lançado o tropicalismo. No dia 21, Gilberto Gil e Os Mutantes defenderam a música "Domingo no Parque" no 3º Festival de MPB da Record, conquistando o segundo lugar, enquanto Caetano Veloso ficou em quarto com "Alegria, Alegria". O movimento, no entanto, já vinha tomando forma fazia alguns meses. O nome "Tropicália" foi dado, em abril, a uma instalação de Hélio Oiticica. A estética também era relacionada a obras como o filme "Terra em Transe" e a peça "O Rei da Vela".

Antagonismos formaram o caleidoscópio tropicalista
Movimento surgido há 40 anos foi a resposta brasileira à efervescência mundial de idéias

JÚLIO MEDAGLIA, ESPECIAL PARA A FOLHA
Os anos 60 iniciaram-se comportadíssimos, com as artes baseadas em linguagens compactas, introspectivas, voltadas para o controle absoluto do acaso. Tanto quanto no jazz (com o movimento cool), na poesia e nas artes plásticas (com o concretismo), com a retomada do dodecafonismo na música de concerto, a bossa nova representava na MPB esse despojamento, essa implosão de idéias. A ordem era filtrar tudo, reduzir componentes para aumentar a tensão.
Mas, se na virada dos 50 para os 60 uma nota só era suficiente para Jobim compor uma música antológica de seu tempo, na outra ponta da década bombas atônitas de muitos megatons explodiam em todas as partes e artes entrecruzando idéias, aparentemente antagônicas entre si, formando um dos mais coloridos caleidoscópios culturais da história. Dos delírios tachistas de Jackson Pollock, passeando com suas tintas pelas telas espalhadas no chão, aos aleatorismos de John Cage nas salas de concertos; da desintegração do jazz, com o free de Coltrane, San Ra, Ornette Coleman e Art Blakey, ao rock psicodélico dos Beatles pós-"Sgt. Pepper's", do rock inteligente de Frank Zappa, do anti-rock de Hendrix ao antiblues de Janis Joplin, tudo ia pelos ares e mares.
Há 40 anos, dois baianos que aparentemente nada tinham a ver com essa excitação, Caetano Veloso e Gilberto Gil (o primeiro, tímido, se exibia num programa de TV e sabia de cor letras de canções de todos os tempos; o outro tocava por 30 cruzeiros num boteco da galeria Metrópole, ainda de terno Ducal e gravata, pois chegava às pressas do escritório da Gessy Lever, onde era contador), lideravam em São Paulo um movimento que era uma resposta brasileira à efervescência mundial de idéias.

Do fino ao cafona
No tropicalismo tudo cabia, interagia e explodia: da música de vanguarda à de retaguarda, da fina à cafona, da discreta à comportamental, da intimista à social, da implícita à escancarada, do berimbau ao teremin, do portunhol ao latim, do som ao ruído, da poesia concreta à de cuíca de Santo Amaro, do Debussy celestial a Vicente Celestino, do samba ao rock, do canto ao toque.
Curiosamente, porém, esses dois tranqüilos baianos, um que falava em "água azul de Amaralina", e outro, em "o rei da brincadeira é José", foram presos. Aliás, da MPB, os únicos. A quem gritava "a terra deve ser do povo", "nos quartéis se aprende a morrer pela pátria e a viver sem razão", ou fazia apologia a Che Guevara em festivais e coisas assim, nada aconteceu. Passaram incólumes pelo crivo do Brasil fardado.
Ou seja: os milicos tinham identificado onde estava o "perigo". Que a "subversão" estava na linguagem, e não na língua; que o que transformava o mundo era o comportamento, e não o panfleto. Os ditadores perceberam aquilo de que os universitários do Tuca que vaiaram Gil e Caetano, por ocasião de "É Proibido Proibir", não tinham se dado conta: que o tropicalismo tinha um profundo sentido político inovador.
Mas, 40 anos depois, revendo as provocações e contribuições que o movimento trouxe à cultura brasileira, cheguei à conclusão que a mais importante de todos foi a seguinte: a grande qualidade de sua música.

O maestro JÚLIO MEDAGLIA é autor do arranjo original da música "Tropicália", de Caetano Veloso.

[Folha de São Paulo, 28/10/2007]



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