Chávez nacionaliza todas as empresas ligadas ao petróleo

O governo venezuelano deve 10 bilhões de euros às companhias que pretende expropriar

Maye Primera, em Caracas

As lanchas, os estaleiros, o abastecimento de água, vapor e gás para os poços. Todos os bens e serviços que tenham conexão com a exploração de petróleo começaram a ser desapropriados na última sexta-feira na Venezuela.
O presidente Hugo Chávez promulgou uma lei que reserva ao Estado todas as atividades ligadas à produção de hidrocarbonetos e prometeu que começaria a aplicá-la imediatamente. "Amanhã começamos a recuperar bens e ativos que hoje passam a ser do Estado, de propriedade social. (...) Amanhã estaremos no lago de Maracaibo dando o primeiro passo", disse Chávez. E foi o que fez.
Às 12:30 de sexta-feira, o comandante-presidente Chávez capitaneou a tomada de uma das frotas de lanchas que operam no lago - a principal bacia petrolífera do país - e que foi transmitida de forma obrigatória por todas as rádios e redes de televisão do país. "Hoje é um ato de libertação", disse em tom solene ao timoneiro e a sua tripulação. "Até hoje esta lancha era de um particular. Agora conduza-a com consciência de que esta lancha é de todo o povo, e que o povo o nomeou capitão."
Mais que a compra por parte do Estado dos bens e serviços que antes pertenciam a terceiros, Chávez disse que a nova lei representa o começo de uma "batalha naval libertadora" que começou nas águas "inimigas" do lago de Maracaibo - jurisdição do Estado de Zulia, governado há nove anos pela oposição. O ministro da Energia e presidente da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), Rafael Ramírez, calculou que só no lago de Maracaibo passarão às mãos do Estado 39 terminais e docas, cinco diques estaleiros, 300 lanchas, 30 rebocadores, 30 barcos de carga e 61 lanchas. O governo também absorverá em seu nome mais de 8 mil trabalhadores que até o momento prestavam serviços às empresas contratadas.
Outro inimigo que o governo venezuelano procura abater através dessa lei é a potencial ameaça por parte das empresas contratadas de paralisar suas atividades e, em consequência, a produção de petróleo do país, como medida de protesto pela falta de pagamentos.
Segundo números da agência Dow Jones, no final de 2008 a PDVSA devia a essas empresas cerca de € 10 bilhões; por isso algumas delas consideravam retirar suas embarcações e equipamentos até que recebessem por seus serviços. Só com a empresa Williams Companies, dedicada à produção de gás natural no leste venezuelano, a PDVSA tem uma dívida de € 180 milhões. Todos esses credores são agora suscetíveis de ser desapropriados.
A lei permite que o governo compense as empresas expropriadas com bônus da dívida pública, em vez de efetivo, anule contratos preexistentes e ordene a ocupação preventiva de instalações.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

[El Pais, 09/05/2009]

Gripe suína mede a desigualdade mundial

Países em desenvolvimento sofrerão mais a pandemia

Javier Lafuente, em Madri

Algo se propagou em todo o mundo muito mais depressa do que o vírus H1N1: as dúvidas, as incógnitas de todo tipo. Uma delas é saber se o mundo está preparado para uma pandemia. Em geral, acontecerá o óbvio: os países ricos encaram melhor esta crise. No entanto, o caso do México e, em menor medida, por enquanto, de algumas economias poderosas da Ásia, evidenciam que é preciso aprofundar-se muito em melhorar a cultura sanitária nas áreas de maior desigualdade.
O trabalho realizado entre 2003 e 2005 depois da ameaça de pandemia da gripe aviária viu seus frutos cinco anos depois. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu as linhas básicas a partir das quais se deveria proceder. Os países que a seguiram contam com protocolos para atuar nesses casos. Uma preparação, no entanto, que continua em falta no Terceiro Mundo e em países em desenvolvimento. Ou pior, que mesmo tendo essa disposição não contam com um sistema de saúde capaz de enfrentar a pandemia.
Na última quinta-feira, o jornal "The Wall Street Journal" afirmou que, em termos materiais, o Reino Unido é um dos países melhor preparados para enfrentar a pandemia. Em conjunto, conta com antivirais suficientes para tratar 33 milhões de pessoas, 54% da população. A França também conta com reservas para atender a uma porcentagem semelhante da população. A ministra da Saúde espanhola, Trinidad Jiménez, confirmou que a Espanha conta com uma provisão de 10 milhões de antivirais.
Na Ásia, é o Japão, com um estoque de medicamentos suficiente para tratar 24% da população, o país que encabeça a lista. Mesmo assim, especialistas consultados creem que se a virulência do vírus for maior, inclusive os sistemas sanitários dos países mais desenvolvidos poderiam ser insuficientes e ineficazes.
A questão não é, portanto, quem tem mais ou menos antivirais. "O número de existências não é necessariamente equivalente ao grau de preparação", adverte a espanhola María Neira, diretora do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS. A Índia, por exemplo, poderia ter uma capacidade econômica suficiente para enfrentar a pandemia, mas carece de infraestrutura para atender a milhões de pessoas.
Alguns países da Ásia, os da África subsaariana e certos grupos populacionais da América Latina serão os mais afetados. No domingo, o governo colombiano confirmou o primeiro caso de um afetado na América do Sul. Nessa região geográfica, a mais desigual do mundo, alguns países deram ou podem dar uma resposta rápida e eficaz a uma situação como a vivida. Mesmo assim, poucos governos divulgaram suas reservas de antivirais. "Não têm o que oferecem. Só dizem que é suficiente para tranquilizar a população, mas estão jogando com a sorte. É muito grave", afirma Rafael Orihuela, ex-ministro da Saúde da Venezuela, especialista em medicina preventiva.
A América Central, por sua proximidade com o México e porque costuma enfrentar em maio épocas de chuvas torrenciais, teme o que possa acontecer. Na Nicarágua, onde 60% da população não têm acesso à água potável e muitas famílias vivem isoladas, os alarmes soaram desde o primeiro momento. O país é um claro exemplo de como o vírus pode ser devastador se chegar a lugares pobres. Seu presidente, Daniel Ortega, admitiu que só tem tratamentos para 3 mil pessoas. Silvio Morales, especialista em epidemiologia e diretor de um hospital de Manágua, afirma que se o vírus se propagar pelo menos 20% dos afetados teriam de ser hospitalizados, criando uma espiral perigosa: a capacidade dos hospitais transbordaria e o número de mortes dispararia. "A Europa pode nos mandar antivirais, material médico... agradecemos eternamente, mas não nos enganemos, esse não é o problema. Transformar a educação sanitária é uma questão cultural."
No caso da Espanha, a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid) não prevê por enquanto uma ajuda estratégica, quer dizer, enviar profissionais para as partes do mundo que necessitem. "Mas não o descartamos; estamos esperando", explica Elena Madrazo. Diretora da Aecid. Até agora a Espanha enviou ao México 65 mil máscaras e 6 mil óculos de proteção individual. Também aprovou uma remessa de € 80 mil solicitada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). "Não há um limite estabelecido para a cooperação", salienta Madrazo.
Embora ainda não tenha sido registrado qualquer caso possível da nova gripe, o continente africano é o mais vulnerável. Por isso alguns países tomaram medidas preventivas radicais. O Egito, por exemplo, mandou sacrificar todos os porcos, uma decisão que acarretou graves distúrbios em cidades como o Cairo.
Na África, o escritório regional da OMS conta com aproximadamente um milhão de tratamentos, embora se dê por certo que, caso chegue o vírus, será preciso recorrer às reservas dos países mais desenvolvidos. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu que se dê ênfase às pessoas que já sofrem alguma doença - desnutrição, malária -, pois seriam as primeiros afetadas.
Que o vírus sofra mutação e tenha uma virulência maior é o pior cenário possível. "Não é momento para previsões. É preciso trabalhar com diversos cenários, mas com precaução e evitando especulações", pede Neira.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

[El Pais, 05/05/2009]

Curta: Início do Fim

Até mesmo o amargo fim tem sempre um começo. Um curta impactante sobre as ruínas da memória. [clique na imagem para assistir]

Ficção, 2005, 6 min.
Direção: Gustavo Spolidoro

Augusto Boal, 1931-2009

02/05/2009 - Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, morre aos 78 anos no Rio
[clique na imagem para saber mais...]

Em tempo de gripe...

A fúria da gripe espanhola
No início da década de 20, enquanto a Europa reunia os cacos da Primeira Guerra, um inimigo ainda mais devastador assustou o mundo todo e, em dois anos, matou mais de 30 milhões de pessoas: a gripe
Por Moacyr Scliar [
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O mundo no tempo das pestes
Ao longo da história, as epidemias provocaram mais mortes do que todas as guerras. A descoberta dos antibióticos diminuiu esse risco - até a chegada da Aids, que ainda desafia os medicamentos.
Por Lúcia Helena de Oliveira e Regina Prado [
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São Paulo, 1918: a capital do inferno
Liane Bertucci escreve que "o tempo da epidemia é o da solidão, da suspeição generalizada, com o esgarçamento das relações humanas". Quem permanece imune tranca-se em casa, não recebe amigos nem parentes. Fecham-se bares, cinemas, teatros. Os guardas são aconselhados a evitar apertos de mãos, limitando-se à continência. Abraços e beijos são considerados quase que atos de traição. "As tragédias que aconteciam no delírio da febre se repetiam com freqüência", acrescenta a autora. Gente gripada tentava o suicídio ou matava o mais próximo. Doentes saltavam das janelas de suas casas ou dos hospitais. [
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O beijo da Morte

Autor de "Robinson Crusoe", o inglês Daniel Defoe descreveu, em forma de reportagem, a peste que devastou Londres no ano de 1665.

LEONARDO FRÓES

No cenário horripilante do ano da peste em Londres, 1665, o beijo da morte é um dos momentos de maior pavor teatral. Um homem já contaminado, que parece estar delirante ou bêbado, sem mais nem menos agarra uma mulher na rua, beijando-a à força na boca para contaminá-la também.
O episódio é dado por verídico e se intercala a muitos outros igualmente patéticos, mas nunca saberemos ao certo se ele foi inventado ou se de fato corresponde a uma visão real.
O repórter pioneiro que o narra em "Um Diário do Ano da Peste", Daniel Defoe (1660-1731), tinha apenas cinco anos de idade quando a desgraça se abateu sobre Londres.
(Há uma boa tradução brasileira de "Um Diário do Ano da Peste", por Eduardo San Martin, publicada em 2002 pela editora Artes e Ofícios.) Além disso, como repórter romanceador ou ficcionista dos fatos, Daniel Defoe mistura boletins semanais de óbitos e outros dados precisos sobre a calamidade a blocos de uma prosa envolvente, porque direta e voltada para a ação, sobre casos que o narrador diz ter ouvido contar. O "Diário" foi escrito e publicado em 1722, mais de meio século depois da Grande Peste (bubônica), e esses casos assim, mesmo que tivessem base real, já estariam muito adulterados pelo passar do tempo.
Ao fazer sua reportagem retrospectiva da história, o jornalista tarimbado, que durante uma década redigiu praticamente sozinho todas as edições de seu pequeno e influente jornal, "The Review", pesquisou não só estatísticas como também muitos folhetos contemporâneos da peste, que a sumariavam no calor da hora.

Ratos de porão
Trazida por ratos nos porões dos navios que atracavam em Londres e disseminada por pulgas dos cães e gatos que os comiam, a epidemia chegou ao auge no verão de 1665, matando no decorrer desse ano, segundo os cálculos do narrador do "Diário", cerca de 100 mil pessoas.
Se inovou em sua época, pela maneira sutil como emendava o ficcional com o vivido, Daniel Defoe também se antecipou ao futuro no manejo de um estilo que é corrente hoje, quando a convergência cada vez mais estreita entre literatura e jornalismo tem determinado a criação de tantos produtos tecnicamente semelhantes ao "Diário da Peste".
Sem ornamentar suas frases, sem exibir erudição, sem se demorar em excursos, traços peculiares à prosa setecentista, Defoe mantém o leitor sempre ligado na sucessão de quadros de horror que recompõe com eficácia.
Tudo começa com um certo disse-me-disse de que a peste vinha chegando. Em breve se evidenciam os primeiros casos, e a mortandade dispara.
Ruas, depois quarteirões inteiros se esvaziam. As casas onde há doentes, às vezes toda a família, são lacradas pela polícia e vigiadas dia e noite, para impedir que os pesteados fujam.
Proíbem-se bailes, bebidas e diversões públicas, mas, quando as coisas se agravam, ninguém mais garante a lei, porque até mesmo os tribunais são fechados. O caos, por fim, se instala em toda a cidade. Londres estava inchada quando a peste chegou. Com a queda da efêmera república inglesa e a restauração da monarquia, cinco anos antes, "as famílias arruinadas do partido do rei" tinham voltado do exílio, assim como voltavam soldados, sem eira nem beira, da recente guerra com a Holanda.
Sem condições de saneamento, as zonas mais pobres forneciam a maior quantidade de cadáveres que os carroções levavam. Os ricos, aos primeiros alarmes, foram refugiar-se correndo nas propriedades rurais de que dispunham.
Mas os últimos fugitivos pobres da peste se refugiaram no mato, construindo toscas cabanas e sobrevivendo ao acaso, como depois irá fazer Robinson Crusoe, o personagem mais rico de Defoe.

Reconciliação
Apesar da devastação que causou, a Grande Peste, segundo seu narrador, teve um lado positivo, pois "a contemplação da morte próxima reconciliou entre si os homens de bons princípios".
Apontando para as divergências, preconceitos e maus sentimentos que então se perpetuavam, ele diz que "outro ano de peste teria reconciliado estas diferenças".
No ano seguinte, 1666, a peste não voltou, mas Londres foi assolada por seu devastador Grande Incêndio, que em menos de uma semana a reduziu pelo meio a cinzas.

LEONARDO FRÓES é poeta, tradutor e crítico.

[Folha de São Paulo, 03/05/2009]

Pânico moral

O historiador inglês Peter Burke relembra a criação de boatos e culpabilizações devido a tragédias e epidemias e ressalta o papel crucial do jornalismo

"A epidemia é uma ameaça real, mas há o perigo de que as pessoas reajam a ela de maneira excessiva ou errada."
PETER BURKE

Uma das desvantagens da globalização, no sentido de eficiência ampliada das comunicações, é que não só as mensagens como as doenças podem se espalhar mais rápido do que no passado, e a atual epidemia de gripe suína exemplifica esse fato muito bem.
A epidemia é claramente uma ameaça real. Mesmo assim, existe o perigo de que as pessoas reajam de maneira excessiva a ela, ou reajam de maneira errada, o que poderia resultar em pânico coletivo. Pânicos coletivos -ou "pânicos morais", como alguns sociólogos os denominam- são um fenômeno comum, talvez até comum demais.
Ocasionalmente o perigo é imaginário, como na onda de pânicos relacionados a bruxas que se espalhou pela Europa nos séculos 16 e 17 e resultou na morte de milhares de pessoas inocentes.
Na China, em 1768, por exemplo, surgiu um grande pânico causado por boatos de que pessoas sem moradia estariam roubando as almas das pessoas comuns, e foi necessária uma intervenção do governo para acalmar a situação.
Na metade de 1789, quando a Revolução Francesa estava começando, um boato (hoje conhecido como "La Grande Peur", ou "o grande medo") se espalhou pelas regiões rurais do país. De acordo com o boato, salteadores estavam se preparando para atacar aldeias e roubar sua comida, como parte de um complô da aristocracia contra o povo.
Em consequência, os camponeses se armaram e alguns deles decidiram atacar as casas dos nobres, em uma espécie de golpe preventivo.
Já em outras ocasiões o perigo é real, e não imaginário, mas os boatos servem para amplificá-lo, como no caso da praga que se abateu sobre a Europa em 1348 e retornou em diversas ocasiões -em Milão e outras cidades do norte da Itália em 1630, em Londres em 1665 e assim por diante.

Bodes expiatórios
Na esfera econômica, um pânico pode bastar para produzir os efeitos cuja possibilidade desperta o medo das pessoas, para começar.
Um exemplo vívido - e que oferece paralelos desconfortáveis com relação à situação presente - é o do pânico financeiro que tomou os EUA em 1873.
A crise surgiu depois de um surto de gripe equina e do colapso de um grande banco (o Jay Cooke & Co.) e resultou em uma depressão econômica que durou alguns anos.
Em casos de pânico coletivo, é comum que surja uma busca por bodes expiatórios. Em outras palavras, grupos ou até mesmo indivíduos são culpados por situações que resultam, ao menos em parte, de debilidades do sistema econômico, social ou político.
Não há nada de surpreendente nisso: indivíduos são visíveis, enquanto sistemas trabalham por efeito de uma "mão invisível". Como resultado, histórias sobre complôs são tema recorrente nos pânicos.
Esses complôs são em geral atribuídos a grupos que já foram descritos como "demônios folclóricos".
Em outras palavras, pessoas que são alvo de preconceitos em determinadas culturas -os católicos (em culturas protestantes), os judeus, os jesuítas, os aristocratas, os banqueiros (de olhos azuis ou de olhos castanhos), os maçons ou os comunistas. São grupos suspeitos de conspirar para envenenar, infectar, queimar, sequestrar ou empobrecer as pessoas comuns ou para promover um golpe de Estado ou uma revolução.
A praga que atingiu Milão em 1630 e tem parte importante em "Os Noivos" ["I Promessi Sposi"], o grande romance de Alessandro Manzoni, foi atribuída por alguns aos chamados "untori", um grupo que espalhava um unguento mortífero pela cidade.
Histórias sobre vilões que envenenam os reservatórios de água ou satanistas que torturam e matam crianças estão em circulação há muitos séculos (pelo menos desde o século 14).
Nesse contexto, não parece irracionável falar em surtos de paranoia coletiva, desde que não descartemos os pânicos como completamente irracionais, patológicos ou absurdos.
Pode haver bons motivos para uma atmosfera de pânico ou incerteza que leve à difusão de rumores desse tipo.

Medo das bruxas
Os pânicos podem representar reação excessiva, mas são reação a um problema real. As bruxas não existiam (ou ao menos não tinham os poderes de causar o mal que lhes eram atribuídos), mas o medo de bruxas expressava tensões sociais reais.
Nunca existiram ladrões de almas, mas os rumores sobre eles expressavam ansiedade da parte das pessoas domiciliadas quanto ao número de pessoas que levavam uma existência nômade nas estradas chinesas.
Os salteadores não estavam mais ativos na França no verão de 1789 do que em outras ocasiões, mas os boatos sobre sua ação e sobre a conexão entre salteadores e a aristocracia nos dizem algo sobre os problemas e os temores dos camponeses franceses da época.
Não havia complôs para espalhar a praga, quer em Milão em 1630 ou em Londres em 1665, mas a praga mesma era um perigo muito real.

Caminho do meio
Será possível encontrar um caminho intermediário entre ignorar ameaças reais e sucumbir a pânicos coletivos? Os meios de comunicação têm papel importante a desempenhar, quanto a isso.
Os rumores que transmitem e amplificam os pânicos são muitas vezes reações à falta de informações confiáveis.
Se podemos afirmar que um pânico se assemelha a uma doença coletiva, o remédio -ou ainda melhor, o profilático- está no jornalismo responsável, quer na televisão, no rádio ou nos jornais.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar). Ele escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Paulo Migliacci.


[Folha de São Paulo, 03/05/2009]