Um estádio não é um campo de batalha, escreve Jacques Le Goff

A polêmica que não para de crescer desde a partida entre a França e a Irlanda em 18 de novembro me parece ser a oportunidade para abrir um debate sobre o lugar do futebol, e, mais amplamente, do esporte dentro da sociedade francesa, assim como em nosso mundo contemporâneo.

Comecemos pela partida em si. Está sendo vista como um ultraje, pois seu resultado, cuja importância é considerável de um ponto de vista esportivo - a qualificação para a fase final da Copa do Mundo de futebol a partir de 11 de junho de 2010 na África do Sul - , se deve ao erro de uma pessoa, o árbitro. Mas este só é entendido dentro de uma reconsideração da direção da equipe da França e da organização internacional do futebol mundial.

Mas também mais amplamente pela revisão minuciosa das relações entre o esporte a sociedade. O esporte existe desde a Antiguidade. Ainda que alguns digam que ele morreu, assim como outras instituições antigas, durante a Idade Média. Ele foi substituído ou por atividades guerreiras reais, ou por práticas lúdicas sob forma de torneios ou de jogos rurais, que eram condenados pela Igreja, pois o desaparecimento do esporte na Idade Média se deve à hostilidade do clero em relação a certas práticas do corpo.

Como mostrei, a Igreja fazia jogo duplo em relação ao corpo. Por um lado, ela o condenava como algo de diabólico - ele era, segundo o papa Gregório Magno, "a abominável vestimenta da alma" - ; por outro, ela o exaltava e glorificava, em especial através da ressurreição do corpo. Dentro dessa tensão que é bem ilustrada pelo quadro de Pieter Bruegel, "O Combate entre o Carnaval e a Quaresma" (1559), o esporte está do lado errado, e não há nem circo, nem estádio na Idade Média.

O esporte renasceu a partir do fim do século 18, e se reconstituiu a partir do século 19 sob formas que lembravam o esporte antigo, sendo que a mais espetacular foi a renovação dos Jogos Olímpicos em 1896. Mas ele também reapareceu sob formas que a Antiguidade havia ignorado. Ainda que alguns esportes tenham conservado o caráter individual que o carregava na Antiguidade, foram criados jogos coletivos cujo nascimento é contemporâneo da difusão da democracia no Ocidente.

Em seu período moderno e contemporâneo, o esporte se tornou um fenômeno planetário. Se na Antiguidade o esporte tinha um aspecto público e de espetáculo, este se tornou predominante e essencial.

Então um incidente como este que ocorreu durante a partida França-Irlanda se tornou um fenômeno quase global que questiona indivíduos, mas também as instituições e os valores que sustentam nossas sociedades. Lembremos que o futebol se tornou o esporte mais popular na Europa, em parte da África, na América do Sul, com o Brasil e a Argentina à frente. Ele já conquistou o México e se expande nos Estados Unidos. Muito praticado na Turquia, em Israel e nos Emirados Árabes, ele se insinua principalmente na Coreia e no Japão.

Em um domínio que adquiriu tamanha importância no plano esportivo, mas também social e político, este incidente vai muito além de uma simples notícia. Parece-me que deve ser a ocasião para importantes reformas. As primeiras são de ordem esportiva. A mão de Thierry Henry me parece ter uma importância secundária, se deixarmos de lado as consequências que ela causou.

O primeiro problema a ser resolvido é o da qualidade da arbitragem. O árbitro se tornou central na arte do futebol. Muitas vezes ele é questionado. E, segundo minha experiência de espectador, na maioria das vezes ele o é com razão.

Não podemos criticar o árbitro da partida França-Irlanda por não ter visto a mão de Thierry Henry. Mas ele deveria ter perguntado a seu juiz de linha e ao capitão dos Azuis. Ele não fez nem uma coisa, nem outra.

Então é preciso exigir mais rigor na formação dos árbitros e fortalecer suas capacidades de julgamento, seja recorrendo a um árbitro situado atrás do gol, seja através do vídeo, ou ainda por outros meios que os especialistas encontrarem. Mas não se pode ficar como está.

Faço uma observação indiretamente ligada ao problema levantado aqui, mas devo assinalar que, ainda que seja delicado julgar a natureza de uma mão voluntária, involuntária ou, o que me parece ser o caso da mão de Thierry Henry, um simples reflexo (pessoalmente, eu não puniria estes dois últimos casos), a apreciação deve ser deixada ao árbitro.

As reações na França e no mundo inteiro são compreensíveis porque o resultado ia contra o curso do jogo. A França não jogou bem, e sua vitória foi vista como ultrajante. Para além da possibilidade de disputar novamente a partida, ao que sou favorável - , conviria reforçar o critério de seleção do seletor das equipes nacionais, de forma que a consequência de um incidente como esse não possa ser agravada pela mediocridade do jogo da equipe que se beneficie com ele.

Também acredito que esse incidente deva ser a ocasião para tentar deter os excessos nas relações que os públicos mundiais mantêm com o esporte, particularmente com o futebol. A repressão policial de pequenos grupos de encrenqueiros é evidente, mas é essencial que as instâncias que pesam sobre o público - escolas, famílias, governos e especialmente as mídias - insistam sobre o fato de que o esporte não é uma guerra, e que uma partida não é uma batalha. É um divertimento que não deve ser poluído pela injustiça ou por um erro evitável.

Dizem que o esporte pode unir os povos. Eu acredito nisso. Mas constato que, com exceção de algumas modestas declarações, ele não está sujeito à formação necessária. O esporte se tornou uma instituição. Ele deve obedecer a valores de justiça e de competição pacífica. O que se vê muitas vezes é o contrário.

É hora de cada um de nós reagirmos contra essa deplorável evolução que está transformando um esporte nascido com a democracia, capaz de alimentar um patriotismo pacífico, em uma explosão de nacionalismo desonroso e de comportamentos deprimentes.

Se a reflexão sobre essa partida estimular reformas profundas e o restabelecimento dos valores na relação entre o esporte e a sociedade, esse infeliz incidente terá servido para alguma coisa.

Jacques Le Goff é historiador, autor de "Uma breve história da Europa", "Uma longa Idade Média" e "A bolsa e a vida", entre outros

Tradução: Lana Lim

[Le Monde, 28/11/2009] 

Brancos se afastam de Obama, e pastores oram por sua morte

O colunista do UOL Notícias em Washington, Sérgio Dávila, fala sobre novas pesquisas de opinião nos Estados Unidos.



Visite o blog do Sérgio Dávila.

Entrevista: Charles Darwin: o homem da evolução


O naturalista inglês Charles Darwin foi criado como um lorde, mas prefere a linguagem coloquial para comentar o impacto de suas ideias e relembrar suas aventuras a bordo do navio Beagle


Charles Robert Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, na Inglaterra. Seu pai queria que ele seguisse a profissão dos homens da família, a medicina. Mas o curioso estudante, que colecionara insetos e pedras quando criança, não suportou a primeira cirurgia a que assistiu. O pai sugeriu, então, que se tornasse clérigo. No entanto, logo viu o rapaz embarcar como naturalista do barco inglês Beagle, cuja missão era mapear a costa sul-americana.

Resignado, o pai acabou fazendo investimentos que permitiram ao jovem não ter que trabalhar. Assim, Darwin pôde dedicar-se a pesquisar e desenvolver teorias. E que teorias! Com a publicação de A Origem das Espécies, ele concluiu que os seres evoluem por meio da chamada "seleção natural" - em que os indivíduos que nascem mais aptos às condições do ambiente prevalecem sobre os outros e passam suas características adiante. A ideia sacudiu o pensamento da época, acostumado a ver homens e animais como fruto da criação divina.

Da série Entrevista com Gente Morta, da revista Aventuras na História. Clique na imagem para ler.

A origem das espécies em HQ

Marco da ciência moderna, livro de Charles Darwin é recriado pelo cartunista e biólogo Fernanzo Gonsales
















[Folha de São Paulo, 22/11/2009]

Duas imagens...


Venezuelanos fazem protesto em Caracas contra o acordo para instalar bases norte-americanas na Colômbia. [Foto: Juan Barreto/AFP]


Peregrinos muçulmanos tocam em pilar sagrado na Montanha da Misericórdia (Jabal al-Rahma), em Arafat, região da cidade santa de Meca. Cerca de 2,5 milhões de muçulmanos de mais de 160 países viajam anualmente para as cidades sagradas de Meca e Medina, no oeste da Arábia Saudita. Todo muçulmano tem que fazer a peregrinação ao menos uma vez na vida, segundo as regras do Islã [Foto: Mahmud Hams/AFP Photo]

Tchecoslováquia celebra uma revolução com raízes em um rumor

Jonathan Adams, em Praga (República Tcheca)
Vaclav Havel, o dissidente que liderou a Revolução de Veludo que derrubou o comunismo na Tchecoslováquia, já declarou que "verdade e amor devem triunfar sobre a mentira e o ódio". Mas a revolução - seu nome sendo uma referência ao punho cerrado em uma luva de veludo - foi provocada por um falso rumor que permanece um mistério 20 anos depois.

Nesta terça-feira, milhares de tchecos marcharam pelas ruas daqui, ao som de sirenes e rosnados dos cães da polícia, reproduzindo de forma impressionante a marcha estudantil não-violenta em 17 de novembro de 1989, na qual a polícia cercou os manifestantes e rumores se espalharam de que um estudante universitário de 19 anos, chamado Martin Smid, tinha sido morto brutalmente. Dezenas de outros tinham sido violentamente espancados. Mas, na verdade, ninguém morreu.

Jan Urban, um líder dissidente e jornalista que ajudou a disseminar a mentira que ele, como muitos outros, acreditava ser verdade na época, lembrou em uma entrevista que a notícia da suposta morte se espalhou rapidamente, ajudando a despertar uma nação de sua apatia coletiva e fornecendo a fagulha - oito dias após a queda do Muro de Berlim - para acender a rebelião pacífica que culminou com o fim do regime.

"Até aquele dia, havia um acordo entre o regime comunista e o povo: 'Vocês calam a boca e nós cuidaremos de vocês'", ele disse. "Mas no momento em que as pessoas tiveram a impressão de que seus filhos estavam sendo mortos, o acordo foi cancelado. Como jornalista, eu me envergonho da mentira porque foi um erro profissional. Mas não lamento, porque ajudou a provocar o fim de quatro décadas de comunismo."

Havel, o presidente Vaclav Klaus e o primeiro-ministro Jan Fischer se juntaram, nesta terça-feira, a centenas que colocavam velas no monumento que marca o confronto. "A manifestação, a marcha, colocou a história em movimento", disse Havel.

Mas duas décadas após uma mentira ter ajudado a provocar uma revolução, muitos tchecos permanecem sem saber ao certo sobre a verdade do que transcorreu naqueles dias de novembro de 1989, assim como as consequências de uma revolução que alguns sentem ter fracassado em cumprir suas promessas.

A República Tcheca, um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia, é em muitos aspectos a inveja de seus vizinhos. Ela conta com uma democracia vibrante e mais riqueza relativa do que muitos aqui poderiam imaginar. Em uma recente pesquisa feita pela Academia Tcheca de Ciências, 81% dos tchecos disseram que não desejam retornar ao velho regime, apesar de notáveis 14% dizerem que a vida era melhor antes de 1989.

Entre as queixas está uma frustração com a classe política, um ressentimento com as desigualdades sociais e um sentimento geral de apatia e alienação. Um senso de estagnação política tomou conta do país desde que o governo do primeiro-ministro Mirek Topolanek foi derrubado em um voto de não-confiança em março, embaraçando o país na metade de sua presidência da União Europeia.

Lukas Toth, 23 anos, um estudante de filosofia que tinha 3 anos durante a revolução, escreveu recentemente um manifesto expondo as queixas dos estudantes universitários com sua jovem democracia. Ele lamentou o país permanecer atolado na "ressaca comunista", que ele caracterizou como uma tendência de olhar para dentro, um cinismo a respeito da política e uma relutância geral em confrontar o passado. Ele disse que muitos de seus pares não tinham ideia do que estava sendo celebrado em 17 de novembro, porque a história recente foi maquiada nos livros de história tchecos.

"Durante a era comunista, as pessoas aprendiam a sentar sobre suas mãos e não fazer nada, algo que não mudou com a Revolução de Veludo", ele disse. "Uma reflexão histórica não ocorreu porque não podemos lidar com a dor de olhar com muita atenção para o que aconteceu."

Quando perguntados nesta terça-feira sobre o significado do 17 de Novembro, muitos tchecos disseram que era apenas outra desculpa para não trabalhar.

Mas outros, como Mirek Kodym, um ex-segurança de 56 anos com rabo-de-cavalo, que publicava tratados políticos e literários ilegais antes de 1989 e que marchou nesta terça-feira como fez há 20 anos, disse que a Revolução de Veludo foi um momento seminal, no qual uma nação sitiada finalmente provou a liberdade.

"Hoje, você pode ser o que quiser e fazer o que quiser, pois ninguém interferirá", disse. "A nostalgia pelo passado é uma coisa estúpida."

Talvez seja um sinal tanto do pluralismo político do país quanto de sua amnésia coletiva que, 20 anos após a revolução, o Partido Comunista tcheco, um partido marxista não reformado, ainda conquiste quase 15% dos votos aqui.

Na última sexta-feira, ele divulgou uma declaração incendiária para marcar o aniversário de 17 de Novembro, acusando os governos eleitos democraticamente que se seguiram à revolução há 20 anos de "promessas e mentiras".

Havel, que pressionou pela abertura dos arquivos da polícia secreta e ajudou a proibir ex-informantes comunistas de exercerem qualquer cargo público responsável, se recusou a proibir o Partido Comunista em si quando era presidente, por temer causar uma caça às bruxas. Ele argumentou recentemente que a nostalgia pelo antigo regime reflete a condição de um povo que ficou aprisionado por tanto tempo que não sabe o que fazer com sua liberdade recém encontrada.

"Eu sempre comparei a ser solto da prisão", afirmou. "Na prisão, tudo é feito para você; você não decide nada. Eles dizem quando acordar, o que vestir, tudo é decidido por outras pessoas para você. Se você viver assim por anos e então for solto repentinamente, a liberdade se transforma em um fardo."

A Revolução de Veludo ocorreu tarde, mas ainda assim foi um episódio épico de teatro político quando finalmente ocorreu. Em meados de 1989, os governos comunistas da Polônia e da Hungria já tinham sucumbido. Milhares de alemães orientais fugiram para Budapeste e Praga, tentando ir para a Alemanha Ocidental por intermédio de suas embaixadas. Os tchecoslovacos se sentiram ainda mais encorajados quando o Muro de Berlim caiu, enviando o sinal mais potente do que o poder do povo pode fazer.

Após a marcha estudantil de 17 de novembro terminar em sangue, a oposição inchou em uma massa dissidente. Liderados por Havel, que estava na prisão por oposição ao governo, eles iniciaram o Fórum Cívico, que exigia eleições livres. Uma semana após a Sexta-Feira Sangrenta, o Politburo renunciou.

Quando centenas de milhares de pessoas se reuniram na Praça Wenceslas, em Praga, e uma maioria se mobilizou em uma greve geral em 27 de novembro, ficou claro que Havel e seu movimento democrático tinham triunfado.

Tradução: George El Khouri Andolfato

[Herald Tribune, 19/11/2009]

Mais presente do que nunca

Sua morte foi decretada, mas o túmulo nunca foi fechado: a questão ideológica continua muito presente na educação (e também fora dela). E não é demais questionar: é possível haver educação sem ideologia, ou a simples expressão desse desejo já é reveladora de um lugar de onde se vê (e pensa ) o mundo?
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