Extrema direita avança na Hungria e no resto do Leste Europeu

Gloria Torrijos, em Viena

Pesquisas preveem que será a segunda força política nas eleições húngaras de 11 e 25 de abril

A direita radical, xenófoba e ultranacionalista representada pelo partido Jobbik (Movimento para uma Hungria Melhor) poderá se transformar nas eleições legislativas da Hungria, em 11 e 25 de abril, na segunda força política, desalojando os socialistas do MSZP, no governo, do qual se prevê que sofra um duro revés e caia do primeiro para o terceiro lugar.

A estrita política orçamentária aplicada pelos socialistas em troca do empréstimo de 20 bilhões de euros (cerca de R$ 48 bilhões) pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a União Européia (UE) para salvar a Hungria da falência é impopular entre sua população, que viu maiores impostos, menores ajudas estatais, cortes nas aposentadorias e o cancelamento do 13º salário anual. As razões que alimentam o sucesso do jovem Jobbik – que, embora criado em 2003, participou pela primeira vez isoladamente das eleições para o Parlamento Europeu em 2009, nas quais obteve 15% dos votos (três lugares) - são o descontentamento, a falta de esperança, tensões sociais e agressões, devido à grave crise econômica do país centro-europeu, a pior em sua democracia.

O prognóstico, segundo as últimas pesquisas, de que o Jobbik consiga até 18% dos votos se baseia na falta de confiança nos socialistas, por obrigarem a apertar o cinto, e o desgaste de oito anos no poder.

Mas também porque o Jobbik atiçou o ódio "contra os bodes-expiatórios tradicionais nesta região europeia": ciganos, judeus e homossexuais. A isso somam-se "teorias de conspirações mundiais", analisa Anton Pelinka, catedrático de ciências políticas e estudos do nacionalismo na Universidade Centro-Europeia em Budapeste.

Essa tática encontra um campo fértil entre os populistas de direita nos países da região, em contraposição ao medo da imigração que domina os discursos da direita populista na Europa Ocidental, afirma Pelinka.

Os bancos e as multinacionais são, para o Jobbik, outros culpados, dos quais exige que "paguem impostos" e dos segundos "que paguem mais", e assim "a Hungria voltará a ser dos húngaros".

A intensa campanha eleitoral do Jobbik, mais que a de nenhum outro partido e que quase não é repercutida nos grandes veículos da imprensa local, contribui para seu grande apoio.

Quase diariamente o Jobbik, encabeçado por jovens políticos radicais com conhecimentos de mídia, realiza cerca de 12 atos eleitorais na área deprimida do leste da Hungria, dos quais participam seu líder, Gabor Vona, e o padre Lóránt Hegedus, conhecido por seus slogans antissemitas.

A falta de cobertura jornalística também é compensada pelo Jobbik, considerado neofascista por sua semelhança com o movimento da Cruz Gamada - aliado do Terceiro Reich da Alemanha nazista -, com o contato pessoal de seus ativistas, que vão de porta em porta. Parece que essa estratégia dá frutos entre uma parte do eleitorado.

Com a criação da Guarda Húngara, embora proibida nos tribunais, o "exército" do Jobbik, que marcha marcando o passo, com bandeiras e saudações paramilitares, pelos assentamentos ciganos, amplia o sentimento de medo contra "os inimigos da pátria".

Embora essa força desempenhe um papel decisivo nas eleições e para muitos seja uma ameaça à democracia, as pesquisas preveem uma vitória segura da Aliança de Jovens Democratas, do carismático ex-primeiro-ministro Viktor Orban, que exerceu essa função de 1998 a 2002 e que chegou a ela com apenas 35 anos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
[El Pais, 10/04/2010]

Igreja Católica: Protegendo os infratores, ignorando as vítimas

Stefan Berg, Jürgen Dahlkamp, Jan Friedmann, Frank Hornig, Simone Kaiser, Sven Röbel, Alexander Smoltczyk, Peter Wensierski
A Igreja Católica alemã foi abalada nos últimos dias por revelações de uma série de casos de abuso sexual. Perto de 100 padres e membros do corpo laico foram apontados como suspeitos de abuso nos últimos anos. Após anos de supressão, o muro de silêncio parece estar ruindo.

Isto é o que parece, o documento de uma conspiração: 24 páginas em latim, com apêndice, publicadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano. Uma “norma interna”, ou conjunto confidencial de diretrizes para todos os bispos, aos quais foi exigido que o mantivessem em segredo por toda a eternidade, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

As diretrizes, emitidas no ano de Nosso Senhor de 1962, tratam de um assunto delicado: o sexo no confessionário. O Vaticano não colocou de forma tão direta, preferindo o uso de uma terminologia mais cautelosa para descrever o que acontece quando um padre desvia um membro de seu rebanho antes, durante ou depois da confissão –em outras palavras, quando ele induz um penitente a “assuntos impuros e obscenos” por meio de “palavras, gestos, toques ou sinais com a cabeça”.

Segundo as instruções de Roma, os bispos precisavam lidar firmemente com cada caso individual –tão firmemente, de fato, que tudo permaneceria dentro dos limites da Santa Igreja. Afinal, a Congregação para a Doutrina da Fé –antes conhecida como a Inquisição– tem séculos de experiência na condução de investigações internas. O Vaticano sempre preencheu todos os cargos nestas investigações –promotores, defensores, juízes– com membros de suas próprias fileiras, enquanto os documentos das investigações são mantidos em arquivos secretos na Cúria Romana.

Posição de autoridade moral
Na superfície, o objetivo do Vaticano é proteger o sacramento da confissão. Na realidade, entretanto, ele tenta manter a posição de autoridade moral superior da Igreja Católica.

Nada pode ser autorizado a manchar essa autoridade: nem o abuso sexual de crianças e adolescentes, cometido por milhares de padres católicos em todo o mundo; nem os relacionamentos secretos entre padres e empregadas; nem o acobertamento de filhos de padres; nem os casos amorosos entre clérigos gays. Todos eles são casos de dois pesos e duas medidas que surgiram porque é difícil para as pessoas –até mesmo para os padres– subordinar seus desejos humanos a uma encíclica papal.

Este código de silêncio foi mantido por décadas, em alguns casos informalmente e em alguns casos em virtude de diretrizes do Vaticano como as de 1962.

Mas agora o muro de silêncio está ruindo na Alemanha. Isso começou quando o Canisius College de Berlim, um colégio jesuíta de elite, revelou recentemente o passado sórdido de uma série de membros da ordem, que abusaram de alunos da escola nos anos 70 e 80. Depois disso, novas vítimas começaram a surgir quase que diariamente. Até a última sexta-feira, pelo menos 40 delas acusavam três padres jesuítas de terem molestado crianças e adolescentes, primeiro em Berlim e depois na Saint Ansgar School em Hamburgo, no Saint Blasien College, na Floresta Negra, e em várias paróquias da Baixa Saxônia, um Estado no norte da Alemanha.

Ponta do Iceberg
Por mais chocantes que fossem as revelações, elas eram apenas a “ponta do iceberg”, diz o atual diretor do Canisius College, o padre Klaus Mertes, que tornou público o abuso sexual contra os estudantes.

Por décadas, os bispos alemães tentaram olhar para o outro lado enquanto seus padres praticavam abuso sexual, assim como minimizar o problema ao caracterizá-lo como incidentes isolados. Agora eles estão finalmente revelando seus próprios números, apesar de que de modo hesitante. Segundo uma pesquisa da “Spiegel” envolvendo 27 dioceses alemãs na semana passada, pelo menos 94 padres e membros do corpo laico na Alemanha são suspeitos de terem abusado de inúmeras crianças e adolescentes desde 1995. Um total de 24 das 27 dioceses responderam às perguntas da “Spiegel”.

Um grupo chamado de Mesa Redonda para o Atendimento nos Lares para Crianças publicou recentemente um relatório provisório que contém conclusões dramáticas. O relatório trata dos abusos cometidos desde os anos 50 contra crianças e adolescentes vivendo em orfanatos, quase metade deles dirigidos pela Igreja Católica.

Segundo o relatório, mais de 150 vítimas de abuso sexual se apresentaram com suas histórias nos últimos meses. Uma delas é uma mulher que, aos 15 anos, teve que assistir a um padre se masturbando no confessionário. Quando ela tentou fugir dele, ela apanhou das freiras que dirigiam o orfanato. Nunca houve uma investigação sistemática de quantas escolas, orfanatos e reitorias católicas foram cenas de abuso, mesmo quando havia evidência nos arquivos. O grupo Mesa Redonda planeja apresentar seu relatório final antes do fim deste ano.

Protegendo os infratores, ignorando as vítimas
Um tremor está atualmente ocorrendo na Igreja Católica alemã. Pode vir a ser o início de um terremoto só visto até o momento na Igreja americana e irlandesa. Dezenas de milhares de casos de abuso vieram à tona em ambos os países. A Alemanha poderia ser o próximo país?

O escândalo está apenas começando e já deixou uma impressão profunda: nos pais, que esperam que as escolas católicas ofereçam uma orientação moral aos seus filhos; nas vítimas, que agora estão enfrentando seu passado sombrio após conviverem com ele por metade de suas vidas; e nos fiéis, que agora veem sua Igreja com desalento. O choque deles vem não apenas do fato de haver pedófilos na Igreja, como em toda parte na sociedade. Ele vem do fato da Igreja ter protegido sistematicamente os perpetradores e ignorado as vítimas, e por ter encoberto os casos de abuso sexual em suas próprias fileiras por décadas –e ao fazê-lo ter permitido aos padres pedófilos deixarem um rastro de devastação emocional por toda a Alemanha.

Até hoje, o presidente da Conferência Episcopal alemã, o arcebispo de Freiburg, Robert Zollitsch, não ofereceu nenhuma palavra convincente de desculpas ou gestos de empatia para as vítimas dos dois pesos e duas medidas da Igreja. Após hesitar por dias, ele finalmente decidiu não conceder uma entrevista à “Spiegel”. A Igreja prefere oficialmente não permitir que o sofrimento de suas vítimas se torne um assunto importante, porque não se enquadra na visão de mundo hipócrita da Igreja.

A Conferência Episcopal nem mesmo discutirá os escândalos sexuais até 22 de fevereiro. “As revelações mostram um lado sombrio da Igreja que me assusta”, disse o jesuíta Hans Langendörfer, secretário da Conferência Episcopal. “Nós queremos uma investigação.”

Moralidade reprimida
Todavia, os clérigos ainda estão longe de qualquer verdadeira autocrítica ou análise abrangente, porque ela exigiria que examinassem a moralidade sexual reprimida da Igreja que é ditada do alto. Ela exigiria uma discussão honesta sobre o celibato e suas consequências, particularmente quando se trata das práticas de recrutamento da Igreja. Em uma Igreja que tem dificuldade em atrair homens ao sacerdócio, particularmente em consequência da proibição ao casamento, o número de bons candidatos se torna tão pequeno que muitos candidatos impróprios são admitidos.

Isso significa que a Igreja manterá sua política hesitante e disfuncional, evitando as questões importantes, como já fez com tanta frequência? Será difícil fazer isso, agora que a ofensiva dos jesuítas colocou todo o clero sob pressão.

A ordem pretende investigar sistematicamente os abusos ocorridos em suas próprias fileiras, por mais doloroso que seja o esforço e mesmo se um crescente número de revelações, por parte de ex-alunos, a mergulhem naquela que provavelmente seria a crise mais profunda na história dos jesuítas. O padre Stefan Dartmann, o chefe da ordem jesuíta da Alemanha, diz que “uma tragédia imensa agora está se tornando aparente”.

Seus temores são justificados, à medida que mais e mais ex-alunos se apresentam. Além do Canisius College e das escolas em Saint Ansgar e Saint Blasien, agora há revelações de abuso no Aloisius College dos jesuítas no bairro Bad Godesberg, em Bonn, onde gerações inteiras de filhos de políticos e diplomatas foram à escola.

‘Era difícil para nós suportar os avanços sexuais dos padres’
Um dos estudantes que experimentou pessoalmente o amor fraternal de um padre jesuíta é Robert K. Falando sobre seu tempo na escola em Bad Godesberg, ele diz: ‘Era difícil para nós, como garotos, suportar os avanços sexuais dos padres. Eles variavam de perguntas extremamente embaraçosas sobre detalhes minuciosos de ‘atos vergonhosos’ durante a confissão, até perguntas sobre beijos e carícias e, finalmente, a investidas sexuais sadistas concretas”. Um monitor, o padre S., “fazia com que os meninos pequenos fossem ao seu quarto, fazia com que se despissem da cintura para baixo e deitassem de bruços em sua cama. O padre então batia violentamente neles com um cabide, realizando depois demonstrações de afeto.”

Imagem jovial
A evidência desses ataques remonta aos anos 50. Alguns padres aparentemente eram capazes de manter seus impulsos mais ou menos sob controle para não atraírem atenção, como o padre M., um falecido ex-professor de matemática no Canisius College, que gostava de assistir as aulas de natação dos meninos da 7ª série. Outros convidavam seus alunos para passeios em suas BMWs. Os estudantes faziam piadas sobre o fato dos padres envolvidos tentarem acariciá-los enquanto estavam no carro.

Depois os infratores envolviam a si mesmos e seus alunos em uma teia de culpa, silêncio desajeitado e uma expiação extorquida. Um deles foi o padre Peter R., um professor de religião corpulento, com costeletas e óculos escuros, que é um dos três padres no Canisius College cujas transgressões agora foram reveladas –e que nega tudo. O padre jesuíta cultivou uma imagem jovial e tenta passar a ideia de ser alguém que entende os jovens. A placa do ônibus VW que ele dirigia incluía as letras SJ, de “Societas Jesu”. Posteriormente, os alunos do Canisius passaram a dizer sarcasticamente que as letras significavam “Seine Jungs” (“Seus meninos”).

Por oito anos, a partir de 1973, Peter R., dirigiu uma espécie de centro para jovens na propriedade do Canisius College conhecido como “Congregação Mariana”. O padre selecionava um grupo de líderes entre os estudantes matriculados em seu clube vespertino, conhecido como Burg (“Castelo”), que então eram convidados para participarem de “sessões de treinamento” de fim de semana em um retiro jesuíta na Baviera.

Fotos tiradas na época mostravam o padre, que insistia que seus estudantes o chamassem de Peter, cercado por seus queridos alunos. Ele então acompanhava “seus meninos” em saídas para esquiar e na piscina. Os adolescentes nas fotos trajam jeans e casacos de tweed. Eles podem ser vistos bebendo cerveja e vinho direto da garrafa, carregando uns aos outros nas costas e às vezes correndo sem camisa pela sala. À primeira vista, as imagens parecem não ser nada mais que fotos inocentes de jovens privilegiados de Berlim Ocidental, que se viam como parte da última escola livre diante da Rússia e como parte de um grupo exclusivo.


Conversas reservadas
Quando ele pensa no trabalho dos jesuítas com os jovens na época, Ansgar Hocke, que atualmente tem 52 anos, diz que ele era caracterizado por um espírito de otimismo. Na época, ele lembra, ele e seus amigos acreditavam que “os tempos de padres em batinas, que gritavam com seus alunos, que eram profundamente conservadores e que viam o catecismo como seu único guia, estavam chegando ao fim”. Padres jovens, atléticos, estavam injetando nova vida na escola. “Nós não víamos quão doentes e instáveis eles eram”, diz Hocke.

Os estudantes sentiam que o direito à felicidade sexual deve ser parte da felicidade humana. “Nós sabíamos que os padres jovens estavam excluídos dessa felicidade e frequentemente víamos quão impotentes eles eram”, diz Hocke. Ele não teve nenhuma experiência pessoal relacionada aos complexos deles, mas outros sofreram de formas terríveis.

Os estudantes que pertenciam à roda mais íntima do padre R. eram submetidos constantemente a “conversas reservadas”. As sessões às vezes ocorriam no porão em Burg, que rapidamente ganhou uma reputação notória entre os estudantes, que o chamavam de “porão da masturbação” ou “sala de interrogatório”. “Eu tive que tirar minhas calças e deitar na cama”, diz um ex-aluno. “Ele queria assistir enquanto eu me masturbava e me tocava enquanto eu fazia aquilo”. Quando ele terminava, diz o ex-aluno, R. perguntava: “Você gostou?”

Mantendo em segredo
Uma mistura de vergonha e medo, ameaças constantes e intimidação, mas também gestos amistosos por parte do padre e sua imagem de ser amigo dos estudantes, devem ter levado suas vítimas a manterem seu segredo por anos, ou tratá-lo como motivo de piada. Geralmente o abuso só terminava quando os estudantes se tornavam mais velhos e deixavam de ser do agrado do padre R.

“Na época, todos nós ouvíamos essas histórias de masturbação. Mas costumávamos rir delas”, disse Johannes Siebner, um ex-aluno do Canisius College que agora é um padre jesuíta e atual diretor do Saint Blasien College.

As cartas que os estudantes escreveram uns aos outros quando tomaram conhecimento das alegações revelam a perplexidade deles: “Tudo é completamente novo para mim, apesar de sempre ter tido essa sensação a respeito (...) A coisa toda foi um choque para mim e tive dificuldade em processá-la. Isso tudo é tão inacreditável, vil, enojante e ruim (...) E havia todo um sistema de pressão, do qual não era fácil sair depois de entrar (...) Mas eu também não entendo a ordem, como pôde ser tão irresponsável (...) Eu tremo enquanto escrevo isto hoje e sinto medo”.

‘Eu perdi minha inocência’
O menino que recebeu a carta, uma vítima do padre R.. tem 48 anos hoje e diz que o abuso “projeta uma sombra” sobre seus tempos de escola. O clima de “impotência, humilhação e mentiras” ainda tem um impacto sobre ele hoje, ele diz. “Você se sente você mesmo apenas parte do tempo. Eu ainda não entendo por que suportei aquilo na época. Eu perdi minha inocência e o alegria da vida.”

Apenas em 1981, quando ele se formou no colégio, é que ele encontrou coragem para denunciar o abuso ao então diretor, o padre Karl Heinz Fischer. Fischer relatou as acusações aos seus superiores e o padre R. foi transferido logo depois. Fischer não sabe o que aconteceu depois disso ao padre. “Eu reagi na época dentro daquilo que era possível”, ele diz.

Protelar a solução do problema ou transferir o transgressor eram as abordagens preferidas dentro da hierarquia da Igreja e da ordem.

O padre R. e seus companheiros, os padres Bernhard E. e Wolfgang S., foram transferidos de Berlim para vários locais na Alemanha, trabalhando em posições subsequentes como professores em Hamburgo e na Floresta Negra, e como pastores e diretores de grupos para jovens em Hildesheim, Göttingen e Hanover.

Em nenhum desses lugares os diretores da escola, padres, estudantes e seus pais foram alertados sobre as tendências perigosas dos novos padres –algo que não causa surpresa, dada a tendência da Igreja de manter as coisas em sigilo. Qualquer um que perguntasse o motivo das transferências era informado, por exemplo, que tinham ocorrido irregularidades financeiras. Quando isso acontecia, o padre em questão apenas não recebia acesso aos fundos da escola. O dinheiro podia ser protegido –mas os estudantes não.

Uma alternativa atraente às escolas públicas para muitos pais
Muitos pais na Alemanha há muito consideram as escolas católicas como uma alternativa atraente ao ensino público de baixa qualidade. Eles esperam professores dedicados que desafiam e encorajam seus alunos, transmitindo tanto conhecimento quanto valores para eles. “O estudante deve sentir a todo tempo que ele, como uma pessoa em desenvolvimento, é importante para o professor”, disse a declaração de missão da Saint Ansgar School, em Hamburgo.

Mas agora estão começando a aparecer rachaduras nesta imagem cuidadosamente cultivada –e precisamente no momento em que muitas escolas estão realizando as matrículas para o próximo ano letivo.

“É um desastre para nós”, diz Friedrich Stolze, o diretor da Saint Ansgar, que veste calça jeans e uma jaqueta esportiva. “Esses padres causaram danos imensos, tanto aos seus alunos quanto a nós atualmente.” Ele sente “raiva e desprezo” pelos homens envolvidos e diz que está claro que “a reputação das escolas católicas foi danificada”.

Quando Stolze chegou ao colégio em Hamburgo como um jovem professor em 1981, dois dos padres atualmente acusados de molestamento ainda estavam lá. Ele e seus colegas deveriam ter notado algo? “Não havia nada”, ele diz. “Nós não nos lembramos de nada.” Ele fica furioso com os líderes da ordem na época. “Eu não consigo entender que alguém deveria ser simplesmente transferido para outra escola, sob a suposição de que ele seria capaz de controlar suas tendências pedófilas lá.”

Minimizando o abuso
Sempre que rumores surgiam nas escolas católicas, paróquias, grupos de jovens e orfanatos, ou as vítimas superavam sua vergonha e denunciavam o abuso, a Igreja minimizava os casos, os caracterizando como isolados, exceções lamentáveis ou uma conduta imprópria de um padre desgarrado. Esta era a posição adotada pelo Vaticano e pelos bispos alemães, que não estavam dispostos a aceitar que o problema podia estar no próprio sistema. Mas o que acontece quando o número de casos começa a crescer, como aconteceu em outros países?

Nos Estados Unidos, também começou como um problema de padres individuais que tinham molestado alunos ou coroinhas. Como seus irmãos alemães, os bispos católicos americanos tentaram por anos proteger seus padres, minimizando as acusações e ignorando as vítimas –até que os tribunais americanos, políticos e o público começaram a exigir respostas, os obrigando a pagar indenizações. No Estado de Delaware e em outros, por exemplo, os legisladores suspenderam o prazo de prescrição dos crimes, levando a uma enxurrada de novos processos. As decisões resultantes forçaram as dioceses a abrirem seus arquivos.

Mais e mais vítimas se apresentaram e, no final, a Igreja Católica na América do Norte foi tomada pelo maior escândalo em sua história. Os bispos americanos concluíram que havia acusações críveis contra cerca de 5 mil padres, envolvendo o abuso de cerca de 12 mil crianças e adolescentes desde 1950.

Várias dioceses, incluindo Tucson, Arizona e San Diego, Califórnia, tiveram que pedir concordata quando se viram incapazes de pagar os acordos financeiros ordenados pela Justiça para as centenas de queixas apresentadas. Apenas a Arquidiocese de Los Angeles teve que pagar mais de US$ 660 milhões em danos, o que representou uma parcela substancial dos mais de US$ 2 bilhões pagos pela Igreja Católica americana como um todo.

Uma série de escândalos sexuais também sacudiu a Irlanda, onde uma comissão concluiu que cerca de 35 mil crianças sofreram agressões e abusos nos lares para crianças e orfanatos católicos entre 1914 e 2000.

Não apenas incidentes isolados
A Igreja alemã, por sua vez, está apenas começando a confrontar seu passado. Na semana passada, 24 das 27 dioceses da Alemanha responderam ao levantamento da “Spiegel” sobre casos de suspeita de abuso em suas próprias fileiras desde 1995. Apenas três dioceses, Limburg, Regensburg e Dresden-Meissen, optaram por não responder. Um porta-voz da diocese de Dresden disse que ela não participou porque “não deseja inflamar ainda mais a atual discussão”.

Os resultados do levantamento mostram que as paróquias e entidades da Igreja por toda a Alemanha enfrentaram casos de abuso sexual cometidos por padres e outras pessoas ligadas á Igreja. Com pelo menos 94 suspeitos revelados até o momento em todo o país, a posição oficial da Igreja de que os casos de abuso são incidentes isolados não mais se sustenta. Os molestadores incluem não apenas padres, mas também leigos que trabalham para a Igreja, como sacristãos, diretores de coral, funcionários das caridades da Igreja e voluntários dos programas para jovens.

Está cada vez mais claro quão difícil é para o Estado punir os culpados. Em muitos casos, os abusos enfrentam o problema da prescrição do crime. Como no caso dos ex-alunos do Canisius College em Berlim, as vítimas só se apresentam 20 ou 30 anos depois. A esta altura, os promotores não contam mais com a opção de abertura de processo. A única opção deles é rejeitar o processo ou encerrá-los prontamente.

Múltiplos casos

A diocese de Rottenburg-Stuttgart, no sudoeste da Alemanha, processou 18 padres e 5 leigos em 23 casos de abuso. Seis casos foram abandonados imediatamente, porque os cinco clérigos e um leigo envolvidos já tinha morrido. No final, 11 suspeitos foram investigados e cinco sentenciados.

Dois padres foram associados a abuso na diocese de Magdeburg, mas em seus casos o crime também prescreveu. Mas um voluntário da Igreja foi julgado por alegações de molestamento durante uma “semana religiosa para crianças”.

Na arquidiocese de Paderborn, um padre foi sentenciado a seis anos e três meses de prisão, enquanto outro padre recebeu dois anos sob liberdade condicional. Ambos foram expulsos da Igreja.

Em Munique, foram impetrados três casos de abuso de menores. Um caso foi rejeitado, um segundo resultou em condenação e o terceiro está em andamento.

Em Colônia, um padre morreu antes que as acusações pudessem ser esclarecidas, outro foi sentenciado e três casos foram rejeitados. Além disso, acusações de abuso foram impetradas contra um músico da Igreja em 2001, um organista em 2002, o diretor de um grupo de escoteiros em 2004 e um sacristão em 2008. Um faxineiro de igreja atualmente está sendo julgado.

Na cidade de Bamberg, na Baviera, várias pessoas acusaram um vigário de abuso sexual. O homem foi afastado do posto, mas então a investigação do promotor foi encerrada.

Relutância da Igreja em esclarecer os crimes
Relatos semelhantes surgiram em cidades como Würzburg, Münster e Aachen, além de muitas outras dioceses. Alguns poucos levaram a condenações, mas na maioria dos casos o Estado está impotente devido aos supostos crimes terem acontecido muitos anos atrás. E o que a Igreja está fazendo a respeito da situação? Por que reluta tanto em esclarecer os crimes? E por que não adotou uma posição mais dura em relação aos suspeitos de abuso?

A visão predominante no Vaticano é que a revolta pública em relação aos casos de abuso é utilizada como uma desculpa para reviver velhas animosidades em relação à Igreja Católica como um todo, assim como para alimentar as críticas de costuma ao papa por intelectuais seculares e desencantados.

Por este motivo, muitos membros da Cúria acreditam ser preferível manter o silêncio do que dar a esses inimigos da Igreja a chance de atacar, além de que a prioridade de Roma deve ser esperar o momento propício –não apenas para superar a tempestade, mas também para evitar ir ao ataque. Determinada a proteger os seus, eles colocam instintivamente o bem da Igreja acima do bem das vítimas. A primeira pergunta não é “como podemos ajudar as vítimas?”, mas “o que devemos fazer com os padres?”

Muito tempo –tempo demais, pelo ponto de vista das vítimas– geralmente se passa antes do próprio papa se manifestar sobre o assunto. Após o tamanho do escândalo de abusos nos Estados Unidos ficar aparente no início de 2002, foi necessário cerca de meio ano para que o então papa João Paulo 2º finalmente fizesse uma declaração no Dia Mundial da Juventude, em Toronto. O papa Bento 16 foi o primeiro papa a se encontrar com as vítimas de abuso –apesar de não oficialmente, à margem de sua viagem aos Estados Unidos e apenas após uma prolongada hesitação por parte de seus assessores. “É mais importante ter bons padres do que muitos padres”, ele disse em um comentário um tanto medíocre. Estava longe de ser um momento de virada.

Até hoje, Bento não enviou a carta pastoral reconfortante que prometeu aos irlandeses, que ficaram abalados pelo escândalo de décadas de abusos. Além disso, nenhuma vítima foi convidada ao Vaticano.

‘Não se pode dizer que a lei criminal tenha alguma importância prática’
O assunto do abuso cometido por padres não tem lugar no mundo acadêmico e de oração de Joseph Ratzinger. Para ele, os crimes contra crianças são a expressão máxima, mais chocante, de uma cultura ateísta, e infelizmente nem mesmo os clérigos estão imunes a ela. Em seu pronunciamento na quarta-feira da semana passada, a recomendação de Bento aos seus padres foi simplesmente seguir o exemplo de São Domingos e se dedicarem plenamente à oração e ao aprendizado.

E para aqueles que já caíram vítima das “fraquezas” da carne, o papa oferece a relativa leniência de um procedimento interno da Igreja. Ao lidar com os transgressores sexuais no clero, o Vaticano depende, pelo menos inicialmente, apenas de seu aparato, de seus próprios investigadores e de seus próprios tribunais. Isso é um reflexo de séculos de tradição, que vai da “santa” Inquisição até a atual Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma. Os procedimentos são nobres, caracterizados por um espírito de perdão e caridade em relação aos irmãos, geralmente conduzidos em latim e fechados ao público.

Mas como a Igreja se recusa a admitir a mera possibilidade de crimes dentro de suas próprias fileiras, sua lei criminal tem tanto peso quanto a fumaça de incenso no altar. “Não se pode dizer que lei criminal tenha alguma importância prática”, diz Klaus Lüdicke, um especialista em lei da Igreja na cidade Münster, no noroeste da Alemanha. No passado, ele acrescenta, o número de casos que se tornaram conhecidos foi “insignificantemente pequeno”.

Problema de definição
Todavia, a Igreja preferiria usar precisamente esses procedimentos para disciplinar seus padres “pecadores”. Mas ela nem mesmo sabe como definir os crimes. Uma opção é tratá-los como um “delictum contra mores”, ou crime contra a moral, enquanto outro seria aplicar o Sexto Mandamento (“Não cometerás adultério”). O problema com a segunda abordagem é que os perpetradores nunca são casados e suas vítimas raramente são casadas.

As penas –transferência ou excomunhão– ficam bem aquém das penas da lei criminal secular, enquanto as circunstâncias atenuantes que podem ser aplicadas para reduzir as penas são generosas. Uma dessas circunstâncias envolve padres, fora isso celibatários, sendo tomados por uma “tempestade de paixão” (“gravis passionis aestus”).

Além disso, uma disposição à penitência, expressão de remorso e correção dos modos normalmente aplaca aqueles que julgam. De qualquer forma, os detalhes sobre as decisões são de difícil obtenção: os veredictos são secretos e desaparecem, como um “secretum pontificium” em arquivos selados.

A Conferência Episcopal alemã gosta de apontar para um conjunto de “diretrizes”, que ela aprovou em 2002, sobre como responder às suspeitas de abuso sexual. O secretário Hans Langendörfer as descreve como um “passo importante”. “Nós queremos tratar do assunto abertamente, que é o que temos feito desde 2002, no mínimo”, ele diz.

Código de sigilo
Mas sob uma análise mais atenta, mesmo essas diretrizes são tomadas pela forma de pensar da Igreja, como afirmado pela Santa Sé em 1962, sob o papa João 23, e novamente em 2001. Segundo essas diretrizes, que permanecem atualmente em vigor, casos potenciais de abuso devem ser informados à Congregação para a Doutrina da Fé. As diretrizes também proíbem os bispos de todo mundo de agirem além da investigação inicial das acusações sem instruções diretas de Roma. Todo o procedimento está sujeito ao “sigilo pontifício”, o segundo maior grau de sigilo dentro da Santa Sé. Qualquer um que violar este código de sigilo sem a permissão papal pode ser punido.

As diretrizes da Conferência Episcopal alemã são elaboradas de acordo e enfatizam a primazia das investigações internas discretas. Antes de tomar uma decisão, cada bispo deve primeiro considerar formas de proteger a reputação do padre e da Igreja. Quando Roma assume a investigação, certos casos de abuso podem ser tratados discretamente em julgamentos secretos.

Com base em sua própria lei canônica, a Igreja Católica alemã não se sente obrigada a relatar imediatamente os casos de abuso dentro de suas próprias fileiras para as autoridades alemãs, para que as autoridades possam conduzir buscas nas casas, por exemplo. Os críticos dizem que a Igreja está se expondo a acusações de obstrução da Justiça caso o clero cuide dos casos de forma puramente interna.

Grupos católicos há muito buscam mudar as diretrizes da Conferência Episcopal, mas sem sucesso. Bernd Göhrig, o diretor executivo de um grupo chamado Igreja de Baixo, pede pela criação de ombudsmen independentes para cuidar dos interesses das vítimas, em vez de representantes tendenciosos da diocese. Esta provavelmente é a única opção viável, dado que os bispos alemães são tão relutantes em tratar da questão do sexo proibido quanto o papa alemão.

Sem necessidade de agir
Mesmo antes do imenso escândalo de abusos nos Estados Unidos em 2002, o cardeal Karl Lehmann, o bispo da cidade alemã de Mainz, no sudoeste, e chefe da Igreja Católica alemã na época, não sentia nenhuma necessidade em particular de agir. “Nós não temos um problema da mesma dimensão (que na Igreja americana)”, ele disse à “Spiegel” em uma entrevista na época. Em sua diocese, ele disse, qualquer um que seja “realmente um pedófilo, é removido imediatamente do serviço pastoral”. Essas pessoas, ele disse, “não podem ser simplesmente transferidas para um local diferente”.

Apenas poucas semanas depois, entretanto, Lehmann se viu diante de um novo caso de abuso dentro de sua própria diocese, em uma paróquia perto de Darmstadt. Poucos meses antes, os pais em uma pequena cidade próxima de Frankfurt descobriram, para seu desalento, que o novo diretor do coral infantil, o padre E., era o mesmo homem que foi forçado a deixar sua paróquia anterior por causa de relacionamentos questionáveis com menores. O sistema de Lehmann já tinha transferido o padre várias vezes de um local para outro.

A Diocese de Aachen, no oeste da Alemanha, também demonstrou pouca disposição de mudar sua abordagem tradicional em um caso recente. Apesar do departamento pessoal da diocese ter conhecimento de que o padre Georg K. tinha convidado coroinhas menores de idade para irem até sua sauna privada, o homem foi simplesmente transferido para uma congregação alemã no exterior, na África do Sul.

Mas K. atraiu atenção imediatamente para si mesmo, após assumir um retiro com crianças que estavam prestes a receber sua primeira comunhão. Os investigadores acreditam que ele as assediou de forma imprópria no dormitório. A nova paróquia de K. não foi informada sobre o incidente em sua paróquia anterior. Foi apenas quando as pessoas envolvidas no caso contataram a mídia que a Igreja reagiu, anunciando que uma autoridade especial da Igreja, responsável pelos casos de abuso, estava tratando do assunto e que as pessoas deviam contatá-la com qualquer informação –que pudessem ser “inocentadoras”, preferencialmente, ou “incriminatórias”.

As investigações se arrastam sem resultados

Enquanto isso, em Berlim, o cardeal Georg Sterzinsky está ciente das alegações contra o padre da paróquia da Santa Cruz desde julho de 2009. Apesar de seu caso poder em breve prescrever –as acusações relacionadas aos incidentes supostamente ocorreram em 2001– uma investigação interna por uma comissão “independente” da Igreja em Berlim está se arrastando. Uma investigação, apesar de secreta, também foi iniciada pelo Vaticano. Coube à vítima denunciar as alegações de abuso à polícia.

Esses casos de abuso, que aconteceram apenas há poucos meses ou anos, mostram que, apesar de suas alegações do contrário, a Igreja fez pouco para mudar sua posição. Isso coincide com a percepção de Johannes Heibel, que trabalha para uma associação alemã que aconselha as vítimas de violência sexual e que trabalha há muitos anos com pessoas que foram abusadas por padres. “A abordagem tradicional –mantenha em sigilo, acoberte, transfira o transgressor– está longe de ser coisa do passado”, ele diz.

“Vocês não estão preocupados com as vítimas, mas principalmente em assegurar que nada apareça na mídia”, disse um adolescente vítima de abuso, em uma acusação voltada ao bispo de Regensburg, Gerhard Müller. Um capelão agarrou seus genitais em 1999.

A Igreja paga pelo silêncio
Em vez da investigação do caso e do capelão ser levado à Justiça, o capelão, agindo por ordem episcopal, pagou à família uma indenização pela dor e sofrimento, sob a condição de que ficasse em silêncio. Então o homem foi transferido para outra paróquia, que não foi informada sobre as alegações de abuso, e onde novos casos de abuso foram denunciados em 2003.

Os incidentes em escolas, que contavam com um total de 220 mil alunos no início dos anos 60, também permaneceram em grande parte sem solução até agora. Michael-Peter Schiltsky, que sofreu abuso várias vezes por diáconos enquanto estava em um lar para crianças da Igreja em Westuffeln, no Estado de Hesse, no oeste, compilou os relatos de muitas outras vítimas de abuso, incluindo 40 de orfanatos católicos. Um dos relatos é de Peter Rueth, um ex-coroinha em um lar para crianças dirigido pelos salvatorianos perto da cidade de Paderborn, no noroeste:

“Certa manhã, quando ele estava sozinho no vestiário comigo, um padre fechou a porta para ouvir minha confissão antes da missa. Ele disse: apenas um espírito puro pode servir a Deus. Eu tive que me sentar em uma cadeira. Então o padre me vendou com sua estola e amarrou minhas mãos com outra peça, dizendo que tinha que fazer isso porque supostamente não se deve ver a outra pessoa durante a confissão. Ele me pediu para falar sobre meus pecados, e quando confessei, ele me disse que, como punição, eu devia abrir minha boca para que ele pudesse colocar uma esponja embebida em vinagre, como a esponja que foi oferecida ao Senhor na cruz.”

Após o sexo oral que seu seguiu, o menino foi instruído a recitar o Pai Nosso três vezes e então lavar sua boca.

Prescrição: um dos maiores problemas para as vítimas
Heinz-Jürgen Overfeld, natural de Berlim, estava no mesmo lar para crianças dirigido pelos salvatorianos. Há duas semanas, ele escreveu uma carta para o presidente da Alemanha, Horst Köhler, pedindo que outro padre daquela casa fosse destituído da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, porque o padre também tinha molestado crianças. Overfeld já confrontou o transgressor, mas a única resposta do padre idoso foi que qualquer coisa que tenha ocorrido no passado já prescreveu.

“No que me concerne, nada prescreve”, escreveu Overfeld para Köhler. “Está tudo voltando.” O presidente ainda não respondeu à carta de Overfeld.

A prescrição é um dos maiores problemas para as vítimas de abuso. A prescrição para crimes sexuais na Alemanha geralmente é de 10 anos a partir do 18º aniversário da vítima. Em outras palavras, alguém que sofreu abuso aos 13 anos deve denunciar o caso às autoridades antes de completar 28 anos, ou o transgressor permanecerá impune. Indenizações expiram três anos após o 21º aniversário da vítima.

Outra vítima da Igreja, Norbert Denef, já reuniu 7 mil assinaturas como parte de uma iniciativa para que o prazo de prescrição seja ampliado ou eliminado, pelo menos na lei civil, para que as vítimas possam ao menos ter a esperança de serem indenizadas financeiramente. Em um caso anterior sem precedente, Denef, após uma longa disputa contra uma ordem de proibição de divulgação, finalmente recebeu 25 mil euros em indenização pela dor e sofrimento causados pela Diocese de Magdeburg, no leste da Alemanha.

Para a Igreja, um esforço sério para confrontar sua própria moral sexual deveria ser tão importante quanto tratar das ramificações legais.

“Se você é forçado, por virtude de sua profissão, a viver uma vida sem esposa e filhos, há um grande risco de que a integração saudável da sexualidade fracassará, o que pode levar a atos pedófilos, por exemplo”, escreveu o teólogo Hans Küng na “Spiegel”, em 2005. “Além da Congregação para a Doutrina da Fé, faria sentido para Roma estabelecer uma Congregação para a Doutrina do Amor, que examinaria cada decreto emitido pela Cúria para assegurar que está de acordo com o conceito cristão de amor.”

Seu colega teólogo Eugen Drewermann escreve sobre uma “estrutura de igreja que é repressiva em áreas emocionais e em questões de amor”. Por causa dessas e outras opiniões semelhantes, o Vaticano revogou a permissão para ambos os teólogos lecionarem.

O celibato, que só passou a ser exigido a partir de 1139, é visto como o principal motivo para o acúmulo reprimido de impulsos sexuais, que às vezes irrompem de formas brutais, dentro do clero. O celibato e a proibição do casamento são padrões rigorosos que nem todos os membros do clero conseguem cumprir. Com frequência, a exibição de castidade na Igreja está em atrito com a realidade. Segundo uma pesquisa americana, dois terços dos padres cumprem seus votos de castidade, enquanto os demais praticam sexo de todos os tipos e formas: heterossexual, bissexual, homossexual, monógamo, promíscuo.

2% dos padres são pedófilos
Há um amplo acordo de que este clima de sexualidade reprimida promove o abuso sexual de crianças nas escolas, orfanatos e paróquias. Vários estudos nos Estados Unidos concluíram que cerca de 2% de todos os padres católicos são pedófilos.

Quando aplicado à Alemanha, este número sugere que de um total de 20 mil membros do clero católico, pelo menos 400 poderiam ser potencialmente pedófilos.

Essa pesquisa levou movimentos leigos como “Nós somos a Igreja” a pedir aos bispos que promovam uma discussão fundamental sobre a sexualidade. O movimento cita um problema estrutural, na qual a combinação de uma moralidade sexual rígida e um sistema autoritário forma uma mistura perigosa. Mas os bispos se recusam até mesmo a discutir o assunto.

Wunibald Müller também pede pelo fim do celibato e pela ordenação das mulheres, dizendo que ambos são “uma forma de prevenção”. Müller, um teólogo católico e psicólogo da Abadia Beneditina de Münsterschwarzach, aconselha os padres que enfrentam sérias crises. Há anos ele defende uma maior abertura em assuntos de sexo e diz: “A experiência da dor e do sofrimento pode nos levar a Deus, mas também o erotismo e a paixão sexual”.

Müller insiste que os membros do clero devem tratar de sua sexualidade. “Eles não podem reprimir esta área, caso contrário ela encontrará formas de vir à tona e causar problemas para outras pessoas.”

Posturas inibidoras em relação à homossexualidade 
As posturas do Vaticano em relação à homossexualidade são particularmente inibidoras, apesar do fato dela ser um tanto disseminada dentro da Igreja e parecer ser relativamente tolerada, desde que não seja discutida. Como o Vaticano considera a prática da homossexualidade um pecado, e como até mesmo passou a exigir testes visando manter os gays longe do sacerdócio nos últimos anos, muitos gays no clero reprimem seus sentimentos. Müller cita uma “homossexualidade imatura” que torna os padres “suscetíveis” em suas interações com jovens.

Os tabus foram suspensos da sexualidade em quase todas as áreas da sociedade nos últimos anos, facilitando para que as vítimas se apresentem. A Igreja, entretanto, continua se agarrando aos seus valores morais de séculos. Segundo Müller, muitos padres que se tornam transgressores sexuais nunca aprenderam a desenvolver relacionamentos íntimos e estreitos. Alguns, ele acrescenta, nunca progrediram além dos níveis infantis de sexualidade ou desenvolveram outros problemas sexuais. Todavia, eles nunca ousariam confessar esses problemas ou mesmo passar por terapia.

Diante de seus problemas de recrutamento, a Igreja aceita quase qualquer um que decidir ser um padre. Entretanto, poucos na Igreja estão dispostos a reconhecer que os novos recrutas cada vez mais incluem jovens que consideram o sacerdócio atraente em parte por acreditarem que lhes permitirá ocultar seus problemas sexuais.

É um círculo vicioso. Menos e menos jovens estão optando pelo sacerdócio –apenas cerca de 100 foram ordenados em 2008– enquanto a maioria esmagadora dos 20 mil pastores e diáconos na Igreja Católica alemã foi educada em um ambiente arquiconservador, sexualmente reprimido da Igreja dos anos 50, 60 e 70. Isto é particularmente verdadeiro a respeito de muitos clérigos veteranos nas dioceses que, em consequência, deixaram os padres jovens sozinhos com seus problemas por tempo demais.

Especialistas concordam que mudanças radicais nos seminários são necessárias, e que questões importantes precisam ser tratadas: quão emocionalmente maduros são os candidatos? Como discussões abertas podem ser iniciadas com aqueles que podem precisar de ajuda, como eles podem ser convencidos a aceitar as ofertas de ajuda?

Celibato: uma vida desperdiçada sem sentido ou um presente do Espírito Santo?
Mas a Igreja mantém teimosamente o voto do celibato e a proibição do casamento, como se fossem uma garantia para –e, talvez, não uma ameaça à– sua existência.

Bispos, como Wilhelm Schraml da Diocese de Passau, na Baviera, glorificam constantemente “o modo de vida celibatário voluntário”, que eles dizem ter provado ser bem-sucedido por centenas de anos. Em uma carta pastoral recente, o cardeal de Colônia, Joachim Meisner, até mesmo descreveu o sacerdócio como “um sinal benéfico de provocação” contra o comportamento predominante. Em uma sociedade de prazer febril, escreveu Meisner, a vida celibatária de um padre pode até ser vista “como uma vida desperdiçada sem sentido”, mas na verdade deve ser vista como um presente precioso do Espírito Santo.

Klaus Beier, um dos especialistas médicos em sexualidade mais proeminentes da Alemanha, iniciou o Projeto de Prevenção Dunkelfeld, no Hospital da Universidade Charité, em Berlim, para ajudar pedófilos. Alguns dos homens que participaram do projeto são religiosos e, para eles, o caminho até seu instituto foi particularmente difícil. Beier teve acesso a vários padres, incluindo membros de ordens, às vezes no contexto de julgamentos e às vezes em resposta a um pedido da Igreja.

“Primeiro eles precisam concluir que a fé deles não os ajudou”, diz Beier. “Quem pode falar abertamente sobre suas inclinações quando até mesmo a fantasia sexual é considerada um pecado?”

Mas a prevenção é mais importante do que nunca na Igreja, diz Beier, porque “as ordens têm um apelo particularmente forte para pessoas com preferências pedófilas”.

Beier, que está convencido de que os padres podem ser ajudados, ofereceu seu apoio ao Vaticano em uma carta ao papa Bento 16, no final de 2008. Sua experiência clínica, ele escreveu ao Santo Padre, pode ser “de grande benefício para os membros afetados do clero”.

Surpreendentemente, o Vaticano respondeu à carta de Beier. “Em nome da Santa Sé, eu desejo agradecer por sua preocupação com o bem-estar das crianças e aos seus esforços para fornecer a assistência apropriada aos afetados”, disse um representante do Secretariado de Estado do Vaticano. Os comentários de Beier, ele acrescentou, seriam “cuidadosamente considerados e encaminhados às autoridades apropriadas”.

Um ponto de virada? Dificilmente. A carta de Beier provavelmente foi parar nos arquivos secretos da Cúria, juntamente com os muitos registros dos procedimentos internos da Igreja.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Da Revista de História da Biblioteca Nacional

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Noam Chomsky: A tomada da democracia norte-americana pelo setor corporativo

Noam Chomsky
O dia 21 de janeiro de 2010 será lembrado como uma data sombria na história da democracia norte-americana e seu declínio.
Naquele dia, a Suprema Corte dos EUA determinou que o governo não pode proibir as corporações de fazerem gastos políticos durante as eleições – uma decisão que afeta profundamente a política do governo, tanto interna quanto externa.
A decisão anuncia uma tomada ainda maior do sistema político dos EUA por parte do setor corporativo.
Para os editores do The New York Times, a decisão “atinge o coração da democracia” ao “abrir caminho para que as corporações usem seus vastos tesouros para dominar as eleições e intimidar as autoridades eleitas a cumprirem suas ordens”.
O tribunal ficou dividido, 5 a 4, com os quatro juízes reacionários (equivocadamente chamados de “conservadores”) recebendo o apoio do juiz Anthony M. Kennedy. O juiz chefe John G. Roberts Jr. selecionou um caso que poderia facilmente ter sido resolvido em esferas mais baixas e manobrou o tribunal, usando-o para empurrar uma decisão de amplo alcance que derruba um século de precedentes que restringiam as contribuições corporativas às campanhas federais.
Agora os gerentes corporativos podem de fato comprar as eleições diretamente, evitando meios indiretos mais complexos. É bem sabido o fato de que as contribuições corporativas, às vezes reempacotadas de formas complexas, podem influenciar em peso as eleições, direcionando assim a política. O tribunal simplesmente deu muito mais poder ao pequeno setor da população que domina a economia.
A “teoria do investimento na política” do economista político Thomas Ferguson faz um prognóstico muito eficaz da política do governo durante longos períodos. A teoria interpreta as eleições como ocasiões nas quais segmentos de poder do setor privado se unem para investir com o objetivo de controlar o Estado.

A decisão de 21 de janeiro apenas reforça os meios para minar a democracia em funcionamento.
O pano de fundo é esclarecedor. Em seu argumento contrário, o juiz John Paul Stevens reconheceu que “há muito sustentamos que as corporações estão cobertas pela Primeira Emenda” - a garantia constitucional para a liberdade de discurso, que incluiria o apoio aos candidatos políticos.
No começo do século 20, teóricos de direito e tribunais implementaram a decisão do tribunal de 1886 de que as corporações – essas “entidades legais coletivistas” - têm os mesmos direitos que as pessoas de carne e osso.
Este ataque contra o liberalismo clássico foi duramente condenado por um tipo de conservadores que está desaparecendo. Christopher G. Tiedeman descreveu o princípio como uma “ameaça à liberdade do indivíduo, e à estabilidade dos Estados norte-americanos enquanto governos populares”.
Morton Horwitz escreve em sua história legal que o conceito de “pessoa” corporativa evoluiu lado a lado com a mudança de poder dos acionistas para os gerentes, e finalmente para a doutrina de que “os poderes do quadro de diretores (…) são idênticos aos poderes da corporação”. Anos depois os direitos corporativos foram expandidos bem além dessas pessoas, principalmente pelos equivocadamente denominados “acordos de comércio livre”. Por esses acordos, por exemplo, se a General Motors estabelece uma fábrica no México, ela pode pedir para se tratada da mesma forma que as empresas mexicanas (“tratamento nacional”) - bem diferente de um mexicano de carne e osso que busca “tratamento nacional” em Nova York, ou mesmo os direitos humanos mínimos.
Há um século, Woodrow Wilson, na época um acadêmico, descreveu uns Estados Unidos em que “grupos comparativamente pequenos de homens”, gerentes corporativos, “exercem o poder e controlam a riqueza e os negócios do país”, tornando-se “rivais do próprio governo”.
Na realidade, esses “pequenos grupos” se tornaram cada vez mais os mestres do governo. O tribunal de Roberts deu a eles um alcance ainda maior.
A decisão de 21 de janeiro veio três dias depois de outra vitória da riqueza e do poder: a eleição do candidato republicano Scott Brown para substituir o finado senador Edward M. Kennedy, o “leão liberal” de Massachusetts. A eleição de Brown foi retratada como uma “virada populista” contra as elites liberais que comandam o governo.

Os dados da votação revelam uma história diferente.
Altos índices de participação nos subúrbios ricos, e baixos em áreas urbanas em grande parte democratas, ajudaram a eleger Brown. “50% dos eleitores republicanos disseram que estavam 'muito interessados' na eleição”. Informou a pesquisa do The Wall Street Journal/NBC, “comparado a 38% dos democratas”.
Então os resultados foram de fato uma virada contra as políticas do presidente Obama: para os ricos, ele não estava fazendo o suficiente para deixá-los mais ricos, enquanto que para os setores pobres, ele estava fazendo demais para atingir esse fim.
A irritação popular é bastante compreensível, dado que os bancos estão prosperando, graças à ajuda do governo, enquanto o desemprego aumentou para 10%.
Nas fábricas, uma em cada seis pessoas está sem trabalho – desemprego nos níveis da Grande Depressão. Com a financialização crescente da economia e o esvaziamento da indústria produtiva, as perspectivas são não trazem esperanças de recuperação dos empregos que foram perdidos.
Brown apresentou a si mesmo como o 41º voto contra o sistema de saúde – ou seja, o voto que poderia acabar com a maioria no Senado dos EUA.
É verdade que o programa de saúde de Obama foi um fator importante na eleição de Massachusetts. As manchetes estão corretas ao dizer que o público está se voltando contra o programa.
Os números da pesquisa explicam porquê: o projeto de lei não vai longe o suficiente. A pesquisa do The Wall Street Journal/NBC descobriu que a maioria dos eleitores desaprova a forma como tanto Obama quanto os Republicanos estão lidando com o sistema de saúde.
Esses números se alinham com as recentes pesquisas nacionais. A opção do sistema público foi apoiada por 56% dos entrevistados, e a adesão ao Medicare aos 55 anos por 64%; ambos os programas foram abandonados.
Oitenta e cinco por cento acreditam que o governo deveria ter o direito de negociar os preços dos medicamentos, como acontece em outros países; Obama garantiu à indústria farmacêutica que não perseguirá esta opção.
Grandes maiorias apoiam o corte de custos, o que faz bastante sentido: os custos per capita dos EUA com a saúde são cerca de duas vezes maiores que os dos países industrializados, e os resultados da saúde são de má qualidade.
Mas o corte de custos não pode ser seriamente empreendido enquanto as companhias farmacêuticas são agraciadas, e o sistema de saúde está nas mãos de seguradoras praticamente desreguladas – um sistema caro peculiar aos EUA.
A decisão de 21 de janeiro levanta novas barreiras significativas para superar a séria crise do sistema de saúde, ou para lidar com assuntos críticos como as ameaçadoras crises do meio ambiente e da energia. O hiato entre a opinião pública e a política pública cresce cada vez mais. E o prejuízo para a democracia norte-americana dificilmente pode ser superestimado.

Tradução: Eloise De Vylder
[The New York Times, 07/02/2010]

Umberto Eco: A leal oposição

Umberto Eco
O cientista Edoardo Boncinelli deu recentemente uma série de aulas na Universidade de Bolonha sobre as origens e o desenvolvimento da teoria da evolução. A coisa que mais me surpreendeu não foi tanto as provas irrefutáveis; mas, sim, o fato de que não apenas os oponentes, mas também muitos dos defensores da teoria, têm ideias tão ingênuas e confusas sobre a evolução.
Uma ideia desse tipo é a crença de algumas darwinianos de que o homem descende dos macacos. (No mínimo, depois de testemunhar certos episódios racistas de nossa época, ficamos tentados a comentar, assim como fez o escritor Alexandre Dumas a um tolo que zombou de sua herança étnica mista: “Meu pai era mulato, meu avô era negro e meu tataravô era um macaco. Veja, senhor: minha família começa onde a sua termina.”)
O fato é que a ciência sempre desafia o senso comum, que normalmente é menos avançado do que as pessoas imaginam. Todas as pessoas escolarizadas sabem que a Terra gira em torno do Sol e não vice-versa. Mesmo assim, em nossas vidas cotidianas, ainda nos apegamos a percepções ingênuas, observando tranquilamente que o Sol está se “levantando” ou se “pondo”, ou está “alto no céu”.
E quantas pessoas de fato podem ser consideradas escolarizadas? Uma pesquisa de 1982 feita na França pela revista Science et Vie revelou que uma em cada três pessoas acreditava que o Sol girava em torno da Terra.
Tirei esta pérola da edição de abril de 2009 do “Les Cahiers de l'Institut” – a revista de um instituto internacional para pesquisa sobre “fous litteraires” (em outras palavras, todos os escritores mais ou menos loucos que defendem ideias improváveis). O artigo de Olivier Justafre tem como foco aqueles que negam que a Terra é redonda e que gira em torno do Sol.
Talvez não surpreenda que as pessoas, incluindo alguns acadêmicos importantes, ainda negassem a hipótese de Copérnico no final do século 17. Mas o fato de que ainda havia grandes oponentes à teoria nos séculos 19 e 20 é bastante alarmante. Embora Justafre limite-se estritamente à oposição francesa, há gente mais do que suficiente –desde Abbe Matalene, que em 1842 demonstrou que o diâmetro do Sol era de apenas 32 centímetros (uma ideia de Epicuro, 22 séculos antes), a Victor Marcucci, que acreditava que a Terra era plana e a Córsega ficava no centro dela.
Isto apenas no século 19 – a loucura continuou no século seguinte. Em 1907, Leon Max publicou o “Essai de Rationalization de la Science Experimentale” [“Ensaio de Racionalização da Ciência Experimental”] em uma editora científica de renome, e em 1936 um certo B. Raiovitch publicou “La Terre Ne Tourne Pas” [“A Terra Não Gira”] no qual argumentava que o Sol era menor do que a Terra e maior do que a Lua (enquanto em 1815 Abbe Bouheret havia sustentado o contrário). Em 1935, Gustave Plaisant, que descrevia a si mesmo como “um ex-aluno da Ecole Polytechnique” escreveu um livro dramaticamente intitulado “Tourne-T-Elle?” (“Será Que Ela Gira?”). E mesmo em 1965, Maurice Ollivier, que também se denominava “ex-aluno da Ecole Polytechnique”, escreveu um livro sobre a imobilidade da Terra.
O único livro mencionado no artigo de Justafre que não foi escrito por um francês foi um de Samuel Birley Rowbotham, escritor britânico que acreditava que a Terra era um disco localizado a 650 quilômetros do Sol, com o Polo Norte no centro. O trabalho de Rowbotham, intitulado “Zetetic Astronomy: Earth Not a Globe” [“Astronomia Zetética: A Terra Não É Um Globo”], foi publicado em forma de panfleto em 1849. Mas nas três décadas seguintes ele cresceu para se tornar um livro de 430 páginas e deu origem à Sociedade Zetética Universal, que sobreviveu até a 1ª Guerra Mundial.
Em 1956, um integrante da Sociedade Astronômica Real, Samuel Shenton, fundou a Flat Earth Society [Sociedade da Terra Plana], com a missão de levar adiante o legado de Rowbotham. Quando a Nasa produziu fotos da Terra vista do espaço nos anos 60, ninguém podia racionalmente negar que o planeta era esférico. Mas na visão de Shenton, as fotos apenas enganavam o olho destreinado: todo o programa espacial era uma fraude, incluindo o pouso na Lua da Nasa, cuja intenção foi fazer com que o público acreditasse que a Terra é redonda.
O sucessor de Shenton, Charles Kenneth Johnson, continuou a denunciar o golpe, escrevendo em 1980 que tanto Moisés quanto Colombo haviam conspirado para difundir a ideia de um globo giratório. Um dos argumentos de Johnson era de que, se a Terra de fato fosse uma esfera, então as superfícies das grandes massas de água também teriam que ser curvas. Mas ele havia checado as superfícies do Lago Tahoe e do Mar de Salton e não encontrou nenhuma curvatura.
Será que deveríamos de fato nos surpreender, então, com o fato de que ainda há pessoas que rejeitam a teoria da evolução?

Tradução: Eloise De Vylder
[The New York Times, 07/02/2010]

Bispo Williamson insiste na negação do Holocausto

Peter Wensierski e Steffen Winter
O controverso bispo Richard Williamson continua negando o Holocausto, embaraçando tanto a Sociedade de São Pio 10º (SSPX) a qual ele pertence quanto o Vaticano. Mas a SSPX está se tornando cada vez mais poderosa, apesar da controvérsia, e está atraindo mais e mais fiéis.
As queixas de Richard Williamson começam quando ele olha pela janela de seu escritório na Casa de São Jorge, a sede em Londres da Sociedade de São Pio 10º (SSPX). Passando o jardim, na base de uma pequena colina no verdejante Parque de Wimbledon, se encontram um lago, um campo de golfe, um clube de croquet e as famosas quadras de tênis.
O velho na janela gosta de tênis, que ele chama com admiração de “o maior espetáculo”, um jogo que envolve “um espírito único, uma vontade única”. No tênis, ele diz, é como se dois gladiadores estivessem enfrentando um ao outro, “apenas sem derramamento de sangue”.
Mas não seria Williamson se ele não sentisse danação até mesmo no mais nobre dos espetáculos. Os trajes vestidos pelas tenistas, diz o bispo com indignação, “mal chegam ao meio de suas coxas”. Williamson notou torcedoras usando saias ainda menores. “Não restou nenhum homem que diga para suas filhas, irmãs, esposas ou mães que este tipo de traje é destinado apenas aos olhos de seus próprios maridos?”
O mundo se tornou um local menor para o notório bispo. Desde que ele negou a existência do Holocausto na televisão há mais de um ano, causando sérios problemas para o papa Bento 16 e quase provocando uma revolta de fiéis cristãos contra Roma, a ultraconservadora SSPX o tem mantido em quarentena virtual em sua sede em Wimbledon. O bispo Bernard Fellay, o superior geral da SSPX, compara Williamson a urânio: “É algo perigoso de se ter”, ele diz, mas você não pode “simplesmente deixar na rua”.

‘Uma grande mentira’
Fellay sabe do que está falando. Williamson não tem intenção de rever suas posições sobre as câmaras de gás. Quando a caçadora de nazistas Beate Klarsfeld lhe enviou um livro sobre a história do Holocausto no ano passado, ele o deixou de lado, sem ler. “O fato é que 6 milhões de pessoas que supostamente foram mortas a gás representam uma enorme mentira”, ele escreveu recentemente aos demais membros da SSPX, notando que “uma ordem mundial completamente nova foi construída” com base neste “fato”. Os judeus, ele acrescentou, “se transformaram em salvadores substitutos graças aos campos de concentração”.
Williamson, após se recusar a pagar uma multa de 12 mil euros, enfrenta acusações de incitação de ódio racial em um julgamento na cidade de Regensburg, no sul da Alemanha, que começará em 16 de abril. Apesar de não se saber se ele estará presente no julgamento, o bispo já reuniu uma equipe legal que inclui o advogado alemão Matthias Lossmann e o advogado britânico que já representou o ex-ditador chileno Augusto Pinochet em sua luta contra a extradição.
Tanto a recusa obstinada do bispo em abandonar suas teorias afrontosas do Holocausto e o julgamento em Regensburg são um embaraço tanto para a SSPX quanto para o Vaticano, que está atualmente em conversações diretas com os fundamentalistas. Durante as reuniões mensais, três teólogos da SSPX sentam, quase como se estivessem participando de outro concílio do Vaticano, diante de três teólogos do papa no Palácio do Santo Ofício, que é lar da Congregação para a Doutrina da Fé e é adjacente à Basílica de São Pedro. Mais próximo do Vaticano impossível. Teólogos liberais e esquerdistas como Hans Küng passaram suas vidas sonhando em vão com um encontro desses.
O Segundo Concílio do Vaticano de 1962 a 1965, também conhecido como Vaticano 2º, cujas reformas ajudaram a modernizar a Igreja Católica, está no alto da agenda dos membros do SSPX, que querem vê-lo revertido o máximo possível. Para eles, ecumenismo é coisa do diabo, o reconhecimento do judaísmo é fonte de disputa e a forma moderna da liturgia é um ato impossível de assimilação do zeitgeist.
A meta deles é serem reconhecidos em Roma novamente após 22 anos. O Vaticano também quer colocar um fim à divisão dentro da Igreja. Mas Williamson, que vem sendo um espinho para aqueles que buscam a reaproximação, não vai embora.
Se um bispo fundamentalista como Williamson for afastado, ele teria o potencial de dividir a Igreja de novo. Ele poderia consagrar novos padres a qualquer momento ou criar seu próprio movimento, ainda mais radical. Isso seria inconveniente tanto para Bento 16 quanto para a SSPX, o motivo para Williamson estar sendo tolerado.

‘Estes homens são ratos’
O refúgio de Williamson é um pequeno quarto de hóspedes na Arthur Road, no sul de Londres, onde ele tem uma vista da Quadra Central de Wimbledon. O quarto fica em um prédio novo, de aspecto comum, adornado apenas com duas colunas flanqueando a entrada da frente. Uma placa na entrada para uma capela no jardim pede aos fiéis que rezem durante a futura “Cruzada do Rosário” da SSPX. O padre Lindström, um sueco magro, assegura que apenas as pessoas certas estão autorizadas a visitar Williamson.
O bispo tem uma reputação de ser imprevisível. Às vezes ele dá aos funcionários instruções para dizerem aos visitantes que ele não está em casa, mas em certa ocasião ele sentou-se ao lado de uma árvore de Natal para dar uma entrevista a um vídeo blogger. Uma entrevista para a “Spiegel”, que estava marcada há algum tempo, ocorreu por acaso em um dia ruim. Williamson estava disposto a aparecer apenas do patamar da escada, e mesmo aí, tudo o que era visível dele era um de seus braços e sua mão usando o anel de bispo. Sua voz era fácil de reconhecer, mas ele se recusou a falar diretamente com os entrevistadores, restando a Lindström subir e descer as escadas, levando as perguntas e respostas.
Posteriormente, Williamson decidiu continuar a entrevista para a “Spiegel” por e-mail – apesar dele estar na sala ao lado. A visita o deixou muito irado. “Nós estamos em guerra”, ele esbravejou, “e vocês estão no lado errado”. Intelectuais liberais alemães são tão detestáveis para ele quanto as minissaias na quadra de tênis. “Estes homens são, pelo menos objetivamente, ratos”, ele escreveu em uma referência aos jornalistas da “Spiegel”.

Heresias e erros
Há uma rotina rígida na sede em Londres da Fraternitas Sacerdotalis Sancti Pii X, como a SSPX é chamada em latim: despertar às 6h, primeiras orações às 6h30, missa às 7h15, almoço às 12h45, rosário às 18h30, orações noturnas às 21h.
À direita da entrada fica a biblioteca, que tem uma estante separada para os livros proibidos. Guardada por duas estátuas, uma de Jesus e uma da Virgem Maria, um sinal identifica claramente as publicações perigosas na estante como “Heresias/Erros”. Na prateleira superior se encontra um livro do teólogo liberal alemão Karl Rahner, uma influência chave sobre o Vaticano 2º, e ao lado dele se encontra um livro que, apesar de considerado uma autoridade por mais de um bilhão de católicos, é moderno demais para a SSPX: “O Catecismo da Igreja Católica”.
Williamson mora no segundo andar. É onde o bispo, que gosta de interpretar lieder de Schumann, retira seu anel pesado de bispo e toca as obras do compositor alemão no piano. “A música é uma expressão da harmonia ou da desarmonia na alma humana”.
Ele também passa bastante tempo navegando na Internet, onde possui fãs leais. Há 520 pessoas registradas como amigos na sua página no Facebook, e centenas leem suas colunas na Internet, que ele escreve sob o nome de “Dinoscopus” –uma palavra inventada derivada de dinossauro e episcopus (a palavra em latim para bispo). Ele cultiva sua imagem como a de um reacionário e um guardião da fé pura. Viver em uma cidade grande é prejudicial, ele pontificou enquanto olhava para as quadras de tênis. Isso interfere e destroi casamentos, ele disse, torna os jovens em “panos de lavar”, que são “enxaguados pelo liberalismo”, tanto que “seu bom senso é diluído”.
Williamson é um homem sofisticado que faz sermões poderosos. Ele é um acadêmico literário com diploma por Cambridge e fala francês, alemão e espanhol perfeitamente. Ele também é vaidoso, com apreço por modos refinados e roupas caras, e esquece do mundo ao seu redor quando toca Beethoven.
E é alguém que acredita que nenhum judeu foi morto nas câmaras de gás do Terceiro Reich.

‘Nós perdemos um de nossos quatro bispos’
O bispo Fellay, o superior de Williamson, parece perturbado enquanto permanece sentado em seu escritório no Palácio Schwandegg, em Menzingen, Suíça. Ele torce fervorosamente para que “Williamson não exploda”. O palácio oferece uma ampla vista dos Alpes no cantão de Zug, onde a velha cidade spa fica situada no topo de uma montanha de 900 metros de altitude. As vozes das oblatas, as mulheres leigas devotas que ajudam os padres a administrar a casa, podem ser ouvidas nos corredores.
“Nós perdemos um de nossos quatro bispos”, diz Fellay. “Nós não podemos usá-lo para mais nada.” Ele está lutando contra si mesmo e contra a história, tentando encontrar as palavras certas e o distanciamento apropriado ao assunto. Ele considera a coisa toda “incrivelmente desagradável” e diz que acreditou que “o bispo tinha entendido melhor as coisas nesse ínterim”. Mas infelizmente Williamson não entendeu. Fellay diz que sua crença pessoal é de que o Holocausto é um fato “óbvio”.
Mas nem todos seus irmãos estão dispostos a concordar. Logo após o estouro do escândalo de Williamson no início de 2009, o padre italiano Floriano Abrahamowicz especulou que as câmaras de gás podiam ser usadas apenas para “desinfecção”, e que Erich Priebke, o ex-capitão da SS que esteve envolvido e foi posteriormente condenado por centenas de execuções de civis na Itália, não era de fato um executor. Isso também foi “desagradável” para a liderança da SSPX.
Por outro lado, o debate teve suas vantagens. Por causa de Williamson, a SSPX adquiriu uma notoriedade sem precedente desde sua criação em 1969 pelo arcebispo francês renegado Marcel Lefebvre. Os ultraconservadores sempre amaram os irmãos da Sociedade e agora eles se transformaram em heróis da direita, do movimento antimodernista. O que um superior geral como Fellay acha disso?

Apelo aos extremistas
“Nós temos apelo junto aos extremistas, algo que não queremos”, diz Fellay, para quem os assuntos de fé são as questões mais importantes. Uma dessas questões de fé envolve quem deve ter a palavra em assuntos religiosos na Suíça: a Igreja, com seus belos templos e torres de sino, ou as mesquitas, com seus minaretes? Por isso Fellay alimentou o recente debate na Suíça a respeito da proibição dos minaretes. Na verdade, ele apreciou o debate, porque, como ele diz, o Islã é “agressivo em geral”.
Por outro lado, os discípulos da SSPX são calmos e compreensivos quando se trata dos discursos falsos e cheios de ódio que vêm de suas próprias fileiras. Nenhum dos colegas de Williamson se incomoda quando o bispo escreve com desprezo sobre as mulheres em seu blog, as chamando de “menos que zeros” e insistindo que estão “sob o poder do homem”. “Ele deve ser seu mestre”, ele escreve.
Os irmãos católicos em Stuttgart mostraram seu lado agressivo contra os gays ao promover um protesto contra a Parada da Christopher Street da cidade, que celebra o orgulho gay. Os padres ergueram cartazes dizendo “Salvem as Crianças da Perversão” e um deles condenava o evento como “poluição moral”. Ele se negou a mencionar a negação do Holocausto por seu colega da SSPX.

‘Febre no corpo da Igreja’
Para evitar mal-entendidos, os ultraconservadores até mesmo contrataram seu próprio especialista em relações públicas, Rudolph Lobmeyr, que já trabalhou para a emissora pública nacional austríaca “ORF”, em Viena, para explicar os benefícios da campanha da Sociedade ao público. “Uma fé mais frágil não é mais desejada”, ele diz. Ele insiste que as pessoas estão à procura de uma liderança decidida e querem poder dividir o mundo em bem e mal –assim como a SSPX faz quando investe contra gays, mulheres e jornalistas. “É um reflexo do desejo de muitas pessoas e é o segredo para o aumento da popularidade da Sociedade”, diz Lobmeyr.
“Nós somos apenas o termômetro indicando a febre no corpo da Igreja”, diz o bispo Fellay, líder da SSPX. A sociedade alega ter 600 mil seguidores. Ela mantém seis seminários, 14 distritos, 161 conventos e 725 centros populares, além de ser ativa em 1.000 locais em todo o mundo. A Sociedade está crescendo nos Estados Unidos, na Ásia e na África.
Foi esse potencial que o papa tinha em mente quando suspendeu as excomunhões dos quatro bispos da SSPX no ano passado. Bento 16 é um tradicionalista e, como os irmãos da Sociedade, adora missas em latim, compartilha suas ideias a respeito da moralidade e às vezes se desespera diante da sociedade moderna, que pode transformar uma frase de Williamson em um programa de televisão sueco em um escândalo global.
Fellay relata triunfantemente que o próprio papa – em acordo com as exigências da SSPX – aparentemente não mais coloca a hóstia da comunhão nas mãos dos fieis, mas diretamente em suas bocas. Para Fellay, isso representa outro sucesso na batalha contra a Igreja moderna.

Congregação crescente
É meio-dia na igreja de mais de 700 anos de Saint-Nicolas-du-Chardonnet em Paris, que é ocupada pela SSPX desde 1977. Todas as missas aqui são realizadas segundo o ritual latino, acompanhadas por cantos gregorianos, com o padre de costas para a congregação –práticas-padrão por séculos, até que o Vaticano 2º destruiu as tradições. Um número notavelmente maior de jovens está ajoelhado no piso frio de pedra e o ar está tomado pelo cheiro de incenso.
A divisão de Paris da SSPX notou um aumento acentuado da frequência à igreja desde o início do ano passado. Os padres tiveram que aumentar a oferta semanal de hóstias em 300, para que haja o suficiente para colocar na língua dos fieis. Talvez o escândalo do Holocausto tenha sido o responsável pelo aumento da frequência, ou talvez o aumento do número de fieis tenha sido encorajado pela suspensão pelo papa da excomunhão dos quatro bispos –ou talvez ambos os fatores sejam responsáveis.
A França é a fortaleza da Sociedade. Ela agora conta com 100 mil seguidores no país e 4 mil crianças frequentam suas escolas. Os tradicionalistas veem o movimento como o futuro do catolicismo.

Ideias estranhas
Niklaus Pfluger acaba de voltar da missa em Saint-Nicolas-du-Chardonnet. Na hierarquia da ordem, o padre suíço fica atrás apenas do bispo Fellay. Quando Williamson chocou a Igreja há um ano ao negar o Holocausto em uma entrevista, Fellay imediatamente enviou Pfluger à Argentina, onde Williamson estava na época, para impedir o bispo renegado de falar à mídia.
Pfluger ainda está confuso a respeito dos motivos de seu companheiro da SSPX. Sentado no Bistrot Saint Honoré em Paris, diante de um prato de mexilhões e uma taça de Ladoix 1er Cru 2002, ele tenta conceber uma explicação. Williamson, ele diz, por acaso é um provocador de primeira e sempre teve ideias estranhas. Logo após o 11 de Setembro de 2001, ele alegou que o governo americano tinha encenado os ataques ao World Trade Center em Nova York. Ele também alega que não foi o Japão, mas a Casa Branca que ordenou o ataque a Pearl Harbor, em um esforço para atrair os americanos à Segunda Guerra Mundial.
Durante um sermão na província canadense de Quebec, em abril de 1989, Williamson disse que os judeus inventaram Auschwitz como forma de obter certos benefícios. Uma pessoa o processou criminalmente e Williamson tem feito o possível para evitar Quebec desde então.
“Ele é na verdade um artista, não um acadêmico”, diz Pfluger. “Ele coloca uma ideia na cabeça, fica fixado nela e exagera. Mas ele não estuda os documentos.” Ele chama Williamson de uma “bomba relógio ativa” para sua organização, mas também aponta que o bispo tem muitos méritos, de forma que não deve ser “exilado na Lua”.

Comportamento imprevisível
Pfluger também está preocupado com a saúde do bispo de 69 anos, que aparentemente sofre de mal de Parkinson há vários anos. Isso poderia explicar seu comportamento imprevisível? Pfluger e seus irmãos da Sociedade frequentemente se irritam com os e-mails que recebem regularmente de Londres. Em um e-mail recente, Williamson escreveu que “1,3 milhão de pessoas deportadas” não foram mortas com gás nos campos de concentração de Treblinka, Majdanek, Belzec e Sobibor, mas foram simplesmente transportadas para a parte da União Soviética que estava ocupada pela Alemanha. Rumores ridículos sobre o contrário devem ser ignorados, acrescentou Williamson.
A sociedade também está ciente dos contatos de Williamson com Ingrid Rimland, a esposa de Ernst Zündel, que está atualmente em uma prisão alemã após ter sido condenado por incitação à negação do Holocausto. Rimland continua disseminando as teorias de seu marido.
O bispo também mantém contato por e-mail com o negador suíço do Holocausto, Jürgen Graf, que está sendo procurado pelas autoridades alemãs, francesas e suíças. Graf acredita que a ideia dos campos de extermínio foi uma invenção dos judeus. Ele planeja publicar um novo livro sobre o campo de extermínio de Sobibor, onde cerca de 250 mil judeus foram mortos nas câmaras de gás, intitulado “Sobibor: Mito e Realidade”. Graf diz que espera que Williamson escreva a introdução para seu livro.
Os padres prestaram atenção em especial quando Williamson, no início do ano, descreveu sua permanência em Londres como uma “licença agradável apesar de não planejada”. Soou como se estivesse cheio das saias das tenistas em Wimbledon e estivesse pronto para começar a falar em público de novo.

Tradução: George El Khouri Andolfato
[Der Spiegel, 02/02/2010]

Igrejas promovem vale-tudo para conectar-se com os jovens

R. M. Schneiderman, em Memphis (EUA)
Em uma sala de ensaio do teatro da rua Beale, o pastor John Renken, 42, recentemente puxou uma oração com um grupo de jovens: “Agradecemos por esta noite. Que seja uma representação do Senhor”.
Uma hora depois, um membro de seu rebanho que havia baixado a cabeça em sinal de respeito estava dando uma chuva de socos em um oponente. As orientações de Renken não eram exatamente delicadas.
“Golpeie com força!”, gritava ao lado de um ringue de um evento de artes marciais chamado Gaiola de Ataques. “Termine a luta! Vai na cabeça! Na cabeça!”
O jovem era membro de uma equipe de luta do Ministério Extremo, uma pequena igreja próxima a Nashville que serve também de academia de artes marciais. Renken, que fundou a igreja e a academia também é técnico da equipe. O lema da escola é “Onde os pés, os pulsos e a fé colidem”.
O ministério de Renken faz parte de uma parcela pequena mas crescente de igrejas evangélicas que adotam o vale-tudo -um esporte com fama de violência e sangue que combina vários estilos de luta- para alcançar e converter jovens, cujas participação na igreja tem sido persistentemente baixa. Os eventos de vale tudo atraíram milhões de telespectadores; um deles foi o maior evento pay-per-view de 2009.
O recrutamento nessas igrejas, predominantemente brancas, envolve reuniões para assistir lutas na televisão e palestras que usam os combates para explicar como Cristo lutou pelo que acreditava. Outros ministros vão mais longe, sediando ou participando de eventos ao vivo.
O objetivo, segundo esses pastores, é injetar masculinidade em seus ministérios - e na imagem de Jesus - na esperança de tornar o cristianismo mais atraente. “Amor e compaixão, concordamos com essas coisas também. Mas o que me fez encontrar Cristo foi que Jesus era um lutador”, disse Brandon Beals, 37, pastor da igreja Canyon Creek no subúrbio de Seattle.
O esforço faz parte de um programa mais amplo e mais antigo de alguns ministros que temem que suas igrejas tornaram-se femininas demais, promovendo a gentileza e a compaixão à custa da força e da responsabilidade.
“O homem deve ser o líder do lar. Criamos uma geração de menininhos”, disse Ryan Dobson, 39, pastor e fã do vale tudo que é filho de James C. Dobson, fundador do grupo evangélico proeminente “Foco na Família”.
Esses pastores dizem que o casamento da fé com o combate tem a intenção de promover os valores cristãos, citando versos como “trave a boa luta da fé”, Timóteo 6:12.
Muitos estimam que o número de igrejas que estão adotando as artes marciais está em torno de 700, de um total de 115.000 igrejas evangélicas brancas nos EUA. O esporte é considerado uma ferramenta legítima para alcançar os jovens pela Associação Nacional de Evangélicos, que representa mais de 45.000 igrejas.
“Existem muitos jovens perturbados que cresceram sem pais e estão vagando sem esperança. Eles próprios também são péssimos pais, perdidos”, disse Paul Robie, 54, pastor da igreja comunitária de South Main em Dhackerer, Utah.

A luta como metáfora faz sentido para alguns jovens.
“Estou lutando para fornecer uma qualidade de vida melhor para minha família e dar-lhe coisas que eu não tive quando era pequeno”, disse Mike Thompson, 32, ex-membro de gangue e estudante de Renken que até recentemente era desempregado e hoje luta com o apelido de “A Fúria”.
“Quando aceitei Cristo em minha vida, compreendi que uma pessoa pode lutar pelo bem”, disse Thompson.
Igrejas evangélicas sem denominação têm uma longa história de usar a cultura popular -rock, skate e até ioga- para atingir novos seguidores. Ainda assim, mesmo entre as seitas mais experimentais, o vale tudo têm críticos.
“Aquilo que você usa para atrair as pessoas para Cristo também será aquilo que você vai precisar para manter as pessoas”, disse Eugene Cho, 39, pastor da igreja Quest, uma congregação evangélica em Seattle. “Eu não vivo pelo Jesus que come carne vermelha, bebe cerveja e bate em outros homens.”
Robert Brady, 49, vice-presidente executivo de um grupo evangélico conservador concordou, dizendo que a mistura do vale tudo com o evangelismo “tira tão facilmente o verdadeiro foco da igreja que é o gospel”.
Há quase uma década, o vale tudo era considerado um esporte sangrento, sem regras ou regulamentos. Foi proibido em quase todos os Estados e criticado por políticos como o senador republicano do Arizona John McCain.
Nos últimos cinco anos, contudo, graças a um inteligente marketing do Ultimate Fighting Championship, a principal marca do esporte, o vale tudo se tornou comum. Hoje, é legal e regulamentado em 42 estados.
Seus defensores apontam para um estudo da Universidade Johns Hopkins mostrando que os participantes das lutas sofrem menos nocautes do que os lutadores de boxe.
No último ano e meio, uma sub-cultura evoluiu, com os cristãos das artes marciais vestindo marcas como “Jesus didn’t tap” e redes sociais cristãs como a anointedfighter.com.
Cerca de 100 homens, muitos tatuados e de cabeça raspada, participam das festas de lutas em Canyon Creek, assistindo combates em quatro grandes televisões da igreja. Há vendedores de cachorro-quente e de camisetas com a frase “Predestinado a Lutar”.
Metade dos que estão ali não são membros da igreja, mas vieram por meio de amigos, disse Beals, conhecido como o pastor da luta.
Os homens de 18 a 34 anos estão ausentes das igrejas, disseram os pastores, porque as igrejas se tornaram mais cômodas para mulheres e crianças.
“Crescemos em igreja de tons pastéis. Os homens caíam no sono”, disse Tom Skiles, 37, pastor da igreja Spirit of St. Louis em Montana.
Ao se focar na dureza de Cristo, os líderes evangélicos estão voltando a um movimento similar do início do século passado, dizem os historiadores, quando as mulheres começaram a entrar para força de trabalho. Os proponentes desse cristianismo muscular defendiam o levantamento de peso e outros esportes como forma de expressarem sua masculinidade.
“Toda essa geração foi criada com a idéia que estão em uma guerra pelo coração e alma dos EUA”, disse Stephen Prothero, professor de religião da diversidade Boston.
Paul Burress, capelão e técnico de luta da igreja Batista Victory, em Rochester, disse que o vale tudo dera a seus alunos uma chance de trabalhar de corpo, alma e espírito. “Ganhando ou perdendo, representamos Jesus”, disse ele. “E vencemos na maior parte das vezes.”
Contudo, na noite fria de Memphis, Renken, o pastor dos Ministérios Extremos, assistiu a dois de seus três lutadores apanhando, um quebrando o tornozelo.
O outro, Jesse Johnson, 20, potencial convertido, foi dominado pelo pescoço e decidiu não voltar para casa com os outros membros da igreja. Ele ficou em Memphis bebendo e estejando com amigos ao longo da rua Beale, ponto agitado e cheio de neons da cidade.

Tradução: Deborah Weinberg
[The New York Times, 03/02/2010]