2012...



O duro é saber que tem gente (e muita) que acredita...

A idéia de república no Império do Brasil

Ao longo de todo o século XIX, o republicanismo conheceu os mais diferentes projetos, acomodando-se às necessidades de cada região onde era defendido
Leia o artigo de Silvia Carla Pereira de Brito Fonseca publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional.
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"O Google é uma tragédia para os jovens", afirma Umberto Eco

Susanne Beyer e Lothar Gorris
O escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Spiegel" sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que o Google é perigoso para os jovens.

Spiegel: Sr. Eco, o senhor é considerado um dos grandes acadêmicos do mundo, e agora está inaugurando uma exibição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas de sua mostra soam um pouco lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas em seus trabalhos e pintores que acumulam coisas em suas pinturas. Por que você escolheu esses temas?
Umberto Eco: A lista é a origem da cultura. Ela faz parte da história da arte e da literatura. O que a cultura quer? Tornar a infinitude compreensível. Ela também quer criar ordem - nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos com a infinitude? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de coleções em museus e através de enciclopédias e dicionários. Há uma atração em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Nós também temos listas totalmente práticas - listas de compras, testamentos, cardápios - que, a seu modo, também são conquistas culturais.

Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?
Eco: A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, exércitos e plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas coleções sobre a natureza do século 16. Meus livros, a propósito, são cheios de listas.

Spiegel: Contadores fazem listas, mas também podemos encontrá-las nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.
Eco: Sim. Mas eles, é claro, não são contadores. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?
Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exato do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.

Spiegel: Mas por que Homero lista todos aqueles guerreiros e seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?
Eco: O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para expressar seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula... As pessoas podem entrar em grandes detalhes.

Spiegel: Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não podem ser realisticamente concluídas?
Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.

Spiegel: Em sua mostra no Louvre, você também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que de fato mostram.
Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é que acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.

Spiegel: Por que as listas e as acumulações são particularmente importantes para você?
Eco: As pessoas do Louvre me procuraram e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exibição no museu, e pediram para que eu elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e me senti como um personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exibição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências.

Spiegel: Ainda assim, você é famoso por ser capaz de explicar suas paixões...
Eco: ? mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseadas em sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Ele vive na água e na terra; bota ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.

Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.

Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.

Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.

Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.

Spiegel: Você tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.
Eco: Acredito que, agora, ela tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que ela não o fizesse. Meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre você. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a me lembrar dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e me sinto bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.

Spiegel: Você inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes em seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Ele adora salada, canela, queijo e especiarias. Ele não gosta de motoqueiros, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E você?
Eco: Eu seria um tolo se respondesse a isso; estaria me fechando numa definição. Eu era fascinado por Stendhal aos 13 e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, eu adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.

Tradução: Eloise De Vylder

Der Spiegel 15/11/2009

Minaretes provocam uma guerra de propaganda na Suíça

Agathe Duparc, em Genebra (Suíça)
David Luyet, viticultor de profissão, faz parte dos cidadãos suíços que se pronunciarão pela proibição da construção de minaretes na Suíça, durante um plebiscito no dia 29 de novembro. Segundo pesquisas, 35% dos eleitores poderão dizer "sim" a essa iniciativa lançada pela União Democrática do Centro (UDC, direita populista) e pela direita evangélica, em nome de uma "recusa inequívoca" de uma "islamização da Suíça".
Luyet, ex-piloto de corridas e católico praticante, próximo dos integristas de Êcone, entrou pessoalmente na batalha. À frente do minúsculo Comitê Questão Islã, esse morador de Valais de 42 anos luta para superar a propaganda da UDC.
Em um país onde se vota várias vezes por ano, e onde a arte dos cartazes políticos provocadores é uma tradição, ele não hesitou em distorcer a foto oficial do Conselho Federal (governo). Nessa fotomontagem, os quatro conselheiros federais (ministros) homens posam de terno e gravata, enquanto as três colegas mulheres usam uma burca azul. "Paremos de esconder o rosto", diz o slogan. O cartaz que provocou protesto geral deveria ser afixado nas dez principais cidades do país. Mas em 6 de novembro a chancelaria federal em Berna o vetou, julgando que a imagem dos "sete sábios" não podia ser explorada com fins políticos. Uma nova versão foi elaborada: as três mulheres de burca azul continuam a aparecer, com uma citação apresentada como um hadith (fala) do profeta Maomé: "Uma nação que confia seus problemas a uma mulher nunca poderá ter sucesso".
A quem observar ao viticultor de Valais que a Suíça abriga hoje somente 4 minaretes em 200 locais de culto e de prece para muçulmanos, ele responde que quer agir "de maneira mais preventiva do que curativa". "Primeiro são exigências para construir minaretes, depois para fazer chamadas às orações, e finalmente para impor os princípios do islamismo em nosso país", ele se angustia, enquanto "as igrejas estão vazias".
No início de outubro, foi um dos cartazes do Comitê de Iniciativa administrado pela UDC, ainda afixado nos quatro cantos da Suíça, que criou a polêmica. Ali se vê a bandeira suíça sob minaretes e uma mulher coberta por um véu, com olhar ameaçador. Algumas cidades, entre as quais Basileia, Lausanne, Friburgo e Neuchâtel, o proibiram, julgando a mensagem discriminatória e hostil, e temendo pela paz social. Zurique e Genebra, pelo contrário, consideraram crucial preservar a liberdade de opinião pública.
A menos de três semanas da votação, o nervosismo é palpável entre os adversários da iniciativa que reúne o Conselho Federal, bem como quase todos os círculos políticos e econômicos. Na terça-feira (10), Eveline Widmer-Schlumpf, ministra da Justiça, declarou que a iniciativa anti-minaretes violava os princípios de liberdade religiosa e de não-discriminação inscritos na Constituição suíça. E que não existia problema de integração para os cerca de 400 mil muçulmanos, entre os quais 50 mil praticantes, que vivem no país. Mas há alguns dias, ela acabou por dar mais argumentos para aqueles que querem proibir os minaretes, ao se declarar pessoalmente contra o uso da burca.

Tradução: Lana Lim

[Le Monde, 12/11/2009]

"A liberação das mulheres também é a libertação dos homens"

Josyane Savigneau
Le Monde: Seu livro "Manuel de guérilla à l'usage des femmes ["Manual de guerrilha para mulheres"] não se contenta em fazer um diagnóstico, ele oferece conselhos.
Brunel: É por essa razão que ele se intitula manual. Faço essa constatação de um fenômeno de sociedade que me parece preocupante: na meia-idade, muitos homens acham normal deixar suas famílias para "refazer suas vidas". O que me surpreende desde o lançamento do livro é o número de depoimentos que recebo da parte de mulheres que viveram essa ruptura na solidão.

Tenho a impressão de ter revelado uma realidade por muito tempo oculta. Muitas dentre elas, assim como eu, conheceram seus parceiros estudando, e construíram com ele uma família. E, de repente, é a anulação brutal de um percurso de vida, tão unilateral que ela só pode questionar. Acho que muitos homens têm medo da morte, medo de envelhecer: a crise do corpo não chega só para as mulheres! Mas sua forma de agir também demonstra uma certa irresponsabilidade, uma imaturidade. E uma falta de respeito por àquela cujo envelhecimento eles não aceitam, pois os remete ao seu próprio.

Le Monde: Tem-se a impressão, de repente, de que se viveu uma mentira?
Brunel: Primeiro se diz que não se pode desconstruir uma vida dessa forma. Esse momento de incredulidade é como uma aniquilação. Olhamos para esse homem que acreditávamos conhecer, e que de repente se tornou um estranho. A cumplicidade que a unia a ele evaporou. Frente a essa brutal ruptura, a sociedade pede às mulheres que sejam "elegantes"... ou seja, que se calem.

Ninguém tem compaixão por elas, como se elas tivessem responsabilidade pelo seu infortúnio. Muitas - não é meu caso - ainda se encontram em uma situação financeira difícil, pois por muito tempo abriram mão de suas carreiras por esse marido que as deixou. E que mostra uma espécie de glória radiante, como se finalmente estivesse renascendo.

As revistas exaltam essas novas famílias, a felicidade desses homens maduros - ou até mesmo velhos, na verdade - que se reavivam junto de uma jovem, sem se preocupar com as primeiras esposas.

Le Monde: A senhora as descreve como vítimas, mas elas não seriam cúmplices?
Brunel: Cúmplices? Mas a sociedade na qual vivemos glorifica a juventude, e até mesmo o culto à juventude! Então a pressão é terrível. As revistas femininas se recusam a abordar a questão da maturidade sem mascará-la. Seu discurso - "Você está melhor aos 50 do que aos 20, recuse a ação do tempo" - é falso.

Le Monde: Antigamente as mulheres eram velhas aos 30 anos; hoje elas estão em plena forma aos 50, mas velhas demais aos olhos dos homens.
Brunel: De alguns homens, felizmente! Construir uma relação sobre o culto desenfreado da juventude só pode levar a um impasse. A maturidade é inevitável... e é boa: estamos mais realizadas aos 50 do que aos 20.

Le Monde: A senhora diz que 50 anos é a idade com a qual as mulheres se tornam avós e os homens, novos pais.
Brunel: E é exatamente o que acontece, não? Todos esses homens grisalhos que se exibem com bebês, concorrendo com os filhos nascidos de seu primeiro casamento, têm algo de patético. Ainda mais que, nunca alguém se sente tão velho do que quando busca a todo preço andar com jovens... que na verdade o lembram constantemente de sua diferença de idade. Mas alguns homens não parecem ver assim. Sua primeira família se tornou um fardo. Muitos afirmam partir não por uma outra mulher, mas sim para "reviver".

Le Monde: Entretanto, raramente eles partem para ficar sozinhos...
Brunel: Nunca, você quer dizer! Uma mulher nova chega tão rápido, que torna claro que ela preparava uma emboscada. Meu ex-marido alega que encontrou sua nova companheira após nossa separação. Obviamente é mentira. Mas essa mentira o reconforta. A verdade é tão banal... A necessidade de carne fresca de uns encontra a estratégia de ascensão social de outras, que sabem que devem agir rápido porque somente seu físico lhes permitirá conseguir um lugar ao sol. Na África, dizem que os homens devem sua fortuna à sua primeira esposa, e sua segunda esposa à sua fortuna...

Le Monde: "O casamento é muitas vezes um álibi para a infidelidade", a senhora escreve...
Brunel: Eu nasci em 1960, após a geração 68. As mulheres que lutaram por causas feministas nos permitiram conseguir vitórias... mas a liberação das mulheres também foi a dos homens. Eles se julgam hoje livres de todas as pressões. São as mulheres que continuam a criar os filhos e devem conciliar tudo, o que é uma desigualdade fundamental. Sobretudo com a idade. Depois dos quarenta, muitas enfrentam isso. Aquelas que se recusam a entrar na corrida maluca contra o tempo porque acreditam ter lutas menos fúteis para se engajar, muitas vezes acabam sozinhas.

Le Monde: A senhora escreve que aceitar que a idade se inscreve no rosto e no corpo é considerado obsceno.
Brunel: Estão sempre dizendo que é preciso anular o tempo por todas as técnicas de rejuvenescimento possíveis para continuar a agradar. Toda uma indústria se apoia sobre essa ilusão. Os cremes destinados às mulheres maduras custam duas vezes mais caro do que os outros! E, ao mesmo tempo, o discurso mantido sobre as mulheres "esticadas" é muitas vezes de uma crueldade...

Le Monde: Como a menopausa, da qual a senhora fala no livro, ainda que seja um assunto tabu.
Brunel: Antigamente, a menopausa era o fim de tudo. Ainda hoje, mesmo entre elas, as mulheres mal querem falar disso, de medo de se verem desclassificadas. A menopausa continua sendo sinônimo de envelhecimento, de fim do desejo. Entretanto, não é uma doença e nem um defeito, somente uma etapa obrigatória - e necessária: felizmente a maternidade não resume a feminilidade! Mas muitas vezes, ao ver que o olhar de seu marido desvia dela, a esposa opta por desistir, dando razão, a contragosto, àqueles que pensam que a vida sexual termina com a função reprodutiva. Entretanto, uma mulher desejada continua tendo desejo por toda sua vida!

Le Monde: Seu ex-marido é Eric Besson, ministro da Imigração e da Identidade Nacional, mas a senhora não acerta as contas com ele, e parece até mesmo ter carinho por ele.
Brunel: É claro! Eu o conheci aos 18 anos, e compartilhamos tudo durante trinta anos. Mas eu o vi mudar radicalmente quando ele deixou o Partido Socialista, e depois seguiu os passos de Nicolas Sarkozy. Sua transgressão lhe valeu tanta reprovação da parte daqueles de quem ele se afastou - mas também elogios em outro campo! - que ela o mudou profundamente. De certa forma, ele queimou suas pontes.

Le Monde: Vê-lo sendo chamado de traidor a chocou?
Brunel: Sim, seus "amigos" do PS se enfureceram com ele quando ele quis se distanciar da campanha de Ségolène Royal, na qual ele não se reconhecia. E isso mesmo antes de se juntar a Sarkozy. Entretanto, ele não entrou no socialismo como se entra em uma religião. Essa lógica sectária e violenta feriu a mim e a meus filhos.

Le Monde: Considerar que ele a deixou para protegê-la não é lhe dar muito crédito?
Brunel: Quando você está na lógica de um combate que sua família não escolheu, ou até desaprova - eu trabalho com a África e sei que o seu ministério significa - , partir é libertar o outro, fazer com que ele não tenha de pagar por suas escolhas. Certamente tento encontrar circunstâncias atenuantes para ele... Mas observo que ele deixou tudo para trás, só levou uma mala consigo. Isso não é de uma generosidade rara?

Le Monde: O livro realmente a libertou?
Brunel: Um livro é sempre uma libertação. Sua última parte fala sobre a reconstrução... É a parte da pesquisa, pois eu ainda estou sofrendo, oscilo dependendo do dia entre a nostalgia do passado e a vertigem de minha nova liberdade. Como todas aquelas que viveram a mesma experiência, devo primeiro aceitar essa fase de luto.

Tradução: Lana Lim

[Le Monde 14/11/2009]

História (em Flash)


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Nas asas do tédio

Daniel Kalder

Berlim hoje é celebrada por sua posição de vanguarda na cultura e na música, pelo design e pela arte vibrantes, e também como um ponto de encontro brusco e atraente entre o oeste e o leste. Tudo isso se justifica, mas para mim Berlim também é fascinante como centro de algo mais: o tédio revolucionário.
Permitam-me explicar. Há 20 anos, em Berlim, o muro separava duas escolas distintas de tédio.
Do lado oriental existia a variedade comunista, definida por grandes labirintos de jaulas de concreto pré-fabricado para seres humanos, fábricas sujas despejando poluentes no ar e complexos monumentais de museus e teatros dedicados a uma visão sufocante da alta cultura.
Para os "ost-berliners", apenas o terror induzido pela Stasi e o consumo copioso de álcool eram capazes de animar as coisas.

Burguesia mimada
Já o lado ocidental, por sua vez, abrigava algo de diferente: o tédio do consumismo bovino do pós-guerra.
A melhor representação disso era a famosa Kaufhaus des Westens, a maior loja de departamentos da Europa [continental], que oferecia muitas e muitas... coisas. Sim, de fato: na KaDeWe havia queijo. E carne. E roupas. Etc.
Apenas um punhado de filhos mimados da burguesia, brincando de revolução, e a maior população de drogados da Europa serviam para animar um pouco as coisas.
Mas então o muro caiu e o tédio do leste foi libertado para que pudesse se fundir com o do oeste.
Isso também aconteceu em outras partes da Europa oriental, mas só em Berlim havia duas escolas em tão perfeito equilíbrio, interconectadas de forma tão íntima.
A apodrecida infraestrutura do comunismo se misturava aos chochos arranha-céus novos em estilo pseudoamericano, na Potsdamer Platz.
A nostalgia do comunismo e a globalização descontrolada se davam as mãos; e todos marcharam unidos para um admirável mundo novo de reciclagem, nudismo, música tecno minimalista e a pornografia mais vil do planeta.
Quem fica na cidade por tempo demais não demora a desconfiar que até a cena de arte "radical" é rigidamente conformista e "segura".
Mas não pensem que estou me queixando. Amo Berlim. É um vislumbre do progresso em vidro e concreto, no qual os cientistas estão criando uma visão utópica de um "tediofuturo" diversificado, mas ordeiro, que um dia poderá triunfar em toda a Europa.

DANIEL KALDER é escritor escocês, autor de "Lost Cosmonaut" (ed. Faber and Faber), em que apresenta o "Manifesto Antiturista" e relatos de visitas a ex-repúblicas soviéticas.
Tradução de Paulo Migliacci.

[Folha de São Paulo, 08/11/2009]